Postagens

Texto antigo, sempre atual : outsiders de todo o mundo, uni-vos!

A marginalização funciona como uma salvaguarda diante de uma constituição social e familiar, reflexo da primeira, degenerada. Sair fora dos trilhos, derrapar, ser peregrino, inventor do seu próprio caminho, é a cura para a homogeneização anuladora que nos ameaça. É preciso dar o grito e o salto para fora, caso contrário é-se arregimentado ilicitamente por uma ordem padronizada que obedece diretamente à orquestração de ordem fraudulenta dos setores coercitivos, dos aparelhos do Estado. Mesmo no seio da família, reprodutora dos modelos tradicionais desse Estado, protocélula dele, é necessário manter autonomia nas relações com os próximos, pois ela reproduz, além dos modelos morais e conservadores, padrões coercitivos, autoritários que servem diretamente à política oficial. O caminho melhor seria fugir, viver à margem, ir buscar a própria liberdade no âmbito da rua, se não for possível encontrar espaços alternativos, ainda que isso traga como conseqüência a brutalização e desumanização d...
Imagem
Esse negócio de amor feliz pra mim tem o mesmo valor de um conto de fadas. Como acredito totalmente no "caráter disfuncional a priori do gênero humano", tenho certeza de que amores não foram feitos para serem felizes. Se você entra numa relação esperando ser feliz, pode ter certeza de que vai se estrepar, porque a dinâmica de um relacionamento requer conflito pra uma adequação e uma possível harmonia de contrários (possível). Se você não vive isso não vai pra frente, pode acreditar. Acho mesmo que essa expectativa é que estraga tudo. Ter a total e lúcida consciência de que o sujeito é disfuncional como você, como nós, já é o primeiro passo pra uma relação minimamente sadia. Quer amor feliz? Vai ver novelas

Nietzsche via Novalis

"Seja em que poesia for, o caos deve transparecer sob o véu  cerrado da ordem." - Novalis

Um poema antigo

Quem sou eu? Aonde vou? Que é a vida? Fechado em meu palácio futurista, A estrada afora perde-se de vista E a minha viagem é sempre preterida. Eu sou um louco, um Fausto, um epicurista, A colorir de ócio as minhas horas. Nada quero, não almejo uma conquista, Escarneço de todas as vitórias. Um palhaço, um bobo, um materialista, A rir do mundo e suas vãs quimeras, Minha alma perde-se através das eras E o meu corpo de si mesmo dista. Minha consciência, diz meu analista, É dual, cheia de ocas contradições. Mas, cá pra nós (falo com meus botões), Ele sim é o doente e eu um artista. Um paranóico, um místico, um budista, Ando à procura de um calmo nirvana, Onde, longe da natureza humana, Me eterize sem deixar uma pista. Palhaço de circo, malabarista, Vivo sempre em cima da corda bamba. Minha vida pouco a pouco descamba, E eu danço samba porque sou flautista. Talvez um mago, um cego, um ilusionista, Eu não existo, nem você, leitor....

Literatices

Imagem
Em alguns de seus versos Drummond explora o tema (já tão explorado) do amor. Ele concebe a idéia do amor como algo desaferrado do elemento físico, que o conspurca, que o avilta, uma vez que o amor é de natureza celeste, transcendente. É então que se plasmam versos como estes: “Eu te amo porque te amo. Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo. Eu te amo porque te amo. Amor é estado de graça e com amor não se paga.” A relação amorosa não pressupõe reciprocidade. Amar é uma experiência solitária, até independente do outro: “Amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo.” “Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim. Porque amor não se troca”  (Carlos Drummond de Andrade, As Sem-Razões do Amor, in Corpo) A partir do momento em que deixamos de nos amar de forma patologicamente narcísica é que começamos a amar o outro, pois aí o encontramos e o vemos (“Eu te amo porque não amo/bastante ou demais a mim”). ...