Literatices

Em alguns de seus versos Drummond
explora o tema (já tão explorado) do amor. Ele concebe a idéia do amor como
algo desaferrado do elemento físico, que o conspurca, que o avilta, uma vez que
o amor é de natureza celeste, transcendente. É então que se plasmam versos como
estes:
“Eu te amo porque te
amo.
Não precisas ser
amante,
e nem sempre sabes
sê-lo.
Eu te amo porque te
amo.
Amor é estado de
graça
e com amor não se
paga.”
A relação amorosa não pressupõe reciprocidade. Amar é uma
experiência solitária, até independente do outro:
“Amor é amor a nada,
feliz e forte em si
mesmo.”
“Eu te amo porque não
amo
bastante ou demais a
mim.
Porque amor não se
troca”
(Carlos Drummond de Andrade, As Sem-Razões do
Amor, in Corpo)
A partir do momento em que
deixamos de nos amar de forma patologicamente narcísica é que começamos a amar
o outro, pois aí o encontramos e o vemos (“Eu te amo porque não amo/bastante ou
demais a mim”).
Em outro poema ele lamenta a
forma equivocada como amamos:
“Tão imperfeitas,
nossas maneiras
de amar.”
E termina:
“O absoluto amor,
revel à condição de carne e alma.”
Pois bem, aqui quero abrir um
parêntese para comparar os versos do poeta itabirano aos
de outro grande poeta, Dante
Milano.
O poeta Dante Milano
Dante Milano, poeta contemporâneo
de Vinicius, Bandeira e do próprio Drummond, escreveu sobre o amor vários
poemas. Num deles ele diz:
“Amor é a coisa mais
só”
“Não o amor vulgar
dos homens,
Sujo de sangue, de
terra,
Amor sujo que dá
nojo.”
“Amor, amor sem
objeto,
Que anda à procura do
amor.”
Exatamente como Drummond, aqui
vemos (além do aspecto subjetivo do amor) o amor despido de sua carcaça carnal,
amor sublimado, etéreo.
Milano refere-se, na última
estrofe do poema, ao amor livre, que não se apega à pessoa física, que
independe dela (“Amor sem objeto”), pois mesmo distante e incorrespondido o
sentimento não esmorece, mas se preserva intacto, puro. Ou seja, prescinde da
pessoa amada.
Mas ele adverte que esse tipo de
amor anda à procura do amor. Difícil encontrá-lo nas relações amorosas humanas,
que muitas vezes não passam de simulacros do orgulho narcísico ou da afirmação
de um poder dissimulado pelo discurso amaroso.
Não posso deixar de me lembrar
também da teoria platônica do amor (Afrodite Uraniana, celeste, que ama a alma,
não o corpo do amado, e Afrodite Pandemos, terrena, que ama o passageiro corpo,
que, logo que se dissipa pelas conseqüências da idade, é abandonado, enquanto
que a Afrodite Uraniana, por ser de natureza celeste, é um amor que não perece,
pois não se esgota no objeto (“amor sem objeto”).
Voltando a Drummond, em outro
poema ele questiona o absurdo da existência considerada do ponto de vista
enfático, sem mistificação (como ele próprio diz alhures):
“Por que nascemos
para amar, se vamos morrer?
Por que morrer, se
amamos?
Por que falta sentido
ao sentido de viver,
amar, morrer?”
(Carlos
Drummond de Andrade, Por Que?, in Corpo)
Aqui o brado ecoa de forma
heideggeriana, pois o tempo, esse tempo que nos penetra a carne e nos arrebenta
em angústia, angústia que para os fortes é clarificadora, pois desencobre (para
usar uma terminologia cara a Heidegger) o ser, libertando-o, esse tempo nos aponta
o limiar da morte, anulando todos os nossos projetos, advindo daí o quietismo do
desespero (“Por que nascemos para amar, se vamos morrer?”).
Em outra ocasião o poeta continua
seguindo os percursos da metafísica. Em Deus e suas Criaturas ele diz:
“Quem morre vai
descansar na paz de Deus.
Quem vive é arrastado
pela guerra de Deus.”
Depois, em Combate:
“Nem eu posso com
Deus nem pode ele comigo”
“ele” escrito em
minúscula.
Aqui se evidencia um aspecto que,
a meu ver, é de suma importância: toda fé viva se alimenta da dúvida, somente a
fé petrificada em dogmas não duvida. Esse combate ao qual Drummond se refere é
o combate do homem em busca de Deus, que, no entanto, mais do homem se afasta
mais ele O procura, e é justamente isso que faz com que o homem O procure, pois
aquilo que se encontra encontrado está, sendo a realização no buscá-lo.
O poeta continua:
“Não me persegue Deus
no dia claro.
Arma, à noite,
emboscadas”
(C. D. A., Combate,
in Corpo)
Dentre as emboscadas que Deus
arma está a metafísica, mas está também a religião, enquanto personificação
acurada da intolerância e da barbárie. A religião é o que mais afasta o ser de
Deus, pois em seu nome atitudes inadmissíveis foram e são praticadas, em seu
nome a fé se gravou a ferro, sangue e fogo nas Cruzadas, em seu nome queimaram-se
gênios cujo único crime foi dizerem a verdade, em seu nome reina a liturgia, o
rito externo, a letra morta. Deus, enfim, se esconde da religião para se
preservar incólume. Buscando-O o homem se realiza.
Também Dante Milano revela, em
seu poema Salmo Perdido:
“Creio num deus
moderno,
um deus sem piedade,
um deus moderno, deu
de guerra, não de paz.”
Depois conclui:
“Deus não nos
reconhece mais.”
É preciso que nos esforcemos para
parecer bastante com Ele, não no sentido de ir aos ofícios sacramentais ou de
realizar ações falsamente altruístas apenas para a honra externa, mas sim de
realizar em nós a essência divina, da qual somos legítimos herdeiros. Então Ele
poderá nos reconhecer.
Assim é que outro grande poeta,
William Blake, afirma que Deus se transforma no que somos para sermos quem ele
é, pois somos crianças (ciência, filosofia, metafísica, enfim) balbuciando Seu
nome, enquanto Ele não nos compreende, pois está distante e nós O buscamos nos
altares e vamos gradualmente nos desassemelhando com Ele.
De qualquer forma, no poema de
Dante Milano, como no de Drummond, aparece a idéia da guerra, guerra entre
forma e idéia, espírito e matéria, fé e dúvida, vida e morte, ser e aparecer.
“Tarde, a vida me
ensina
esta lição discreta:
a ode cristalina
é a que se faz sem
poeta.”
Aqui se faz ver que o poema não
precisa obedecer a nenhuma linearidade, prescinde inclusive do próprio poeta
para que uma voz superior se faça ouvir: a voz do poema ele-mesmo, em sua
materialidade absoluta.
Em Lição de Coisas (também uma
lição, evidenciando o caráter de eterno aprendiz de que se reveste a poesia), o
poeta se lança às aventuras de tal concretude.
Bem, vários poetas modernistas
tiveram lá sua faze concretista: Bandeira, Abgar Renault, Vinicius, etc.
Drummond, tão por dentro das teorias vanguardistas, não escapou a isso. O poeta
era bastante polivalente.
Para terminar, o poeta itabirano
afirma, em tom heraclítico-nietzschiano, o caráter aberto do homem, sempre um
processo, um vir-a-ser:
“O problema não é inventar. É ser
inventado hora após hora e nunca ficar pronta nossa edição convincente.”
Vejamos agora este poema do abolicionista
Castro Alves:

O Fantasma e a Canção
Orgulho! desce os
olhos dos céus sobre ti mesmo, e vê como os nomes mais poderosos vão se
refugiar numa canção. - BYRON.
- QUEM BATE? - "A noite é sombria!"
- Quem bate? - "É rijo o tufão!...
Não ouvis? a ventania
Ladra à lua como um cão."
- Quem bate? - "O nome qu'importa?
Chamo-me dor... abre a porta!
Chamo-me frio... abre o lar!
Dá-me pão... chamo-me fome!
Necessidade é o meu nome!"
- Mendigo! podes passar!
"Mulher, se eu falar, prometes
A porta abrir-me?" - Talvez.
- "Olha... Nas cãs deste velho
Verás fanados lauréis.
Há no meu crânio enrugado
O fundo sulco traçado
Pela c'roa imperial.
Foragido, errante espectro,
Meu cajado - já foi cetro!
Meus trapos - manto real!"
- Senhor, minha casa é pobre...
Ide bater a um solar!
- "De lá venho... O Rei-fantasma
Baniram do próprio lar.
Nas largas escadarias,
Nas vetustas galerias,
Os pajens e as cortesãs
Cantavam!... Reinava a orgia!...
Festa! Festa! E ninguém via
O Rei coberto de cãs!"
- Fantasmas! Aos grandes, que tombam,
É palácio o mausoléu!
- "Silêncio! De longe eu venho...
Também meu túmulo morreu.
O séc'lo - traça que medra
Nos livros feitos de pedra -
Rói o mármore, cruel.
O tempo - Átila terrível
Quebra co'a pata invisível
Sarcófago e capitel.
"Desgraça então para o espectro,
Quer seja Homero ou Solon,
Se, medindo a treva imensa
Vai bater ao Panteon...
O motim - Nero profano -
No ventre da cova insano
Mergulha os dedos cruéis.
Da guerra nos paroxismos
Se abismam mesmo os abismos
E o morto morre outra vez!
"Então, nas sombras infindas,
S'esbarramem confusão
Os fantasmas sem abrigo
Nem no espaço, nem no chão...
As almas angustiadas,
Como águias desaninhadas,
Gemendo voam no ar.
E enchem de vagos lamentos
As vagas negras dos ventos,
Os ventos do negro mar!
"Bati a todas as portas
Nem uma só me acolheu!..."
- "Entra! -: Uma voz argentina
Dentro do lar respondeu.
- "Entra, pois! Sombra exilada,
Entra! O verso - é uma pousada
Aos reis que perdidos vão.
A estrofe - é a púrpura extrema,
Último trono - é o poema!
Último asilo - a Canção!..."
Bahia, 13 de dezembro de 1869.
- QUEM BATE? - "A noite é sombria!"
- Quem bate? - "É rijo o tufão!...
Não ouvis? a ventania
Ladra à lua como um cão."
- Quem bate? - "O nome qu'importa?
Chamo-me dor... abre a porta!
Chamo-me frio... abre o lar!
Dá-me pão... chamo-me fome!
Necessidade é o meu nome!"
- Mendigo! podes passar!
"Mulher, se eu falar, prometes
A porta abrir-me?" - Talvez.
- "Olha... Nas cãs deste velho
Verás fanados lauréis.
Há no meu crânio enrugado
O fundo sulco traçado
Pela c'roa imperial.
Foragido, errante espectro,
Meu cajado - já foi cetro!
Meus trapos - manto real!"
- Senhor, minha casa é pobre...
Ide bater a um solar!
- "De lá venho... O Rei-fantasma
Baniram do próprio lar.
Nas largas escadarias,
Nas vetustas galerias,
Os pajens e as cortesãs
Cantavam!... Reinava a orgia!...
Festa! Festa! E ninguém via
O Rei coberto de cãs!"
- Fantasmas! Aos grandes, que tombam,
É palácio o mausoléu!
- "Silêncio! De longe eu venho...
Também meu túmulo morreu.
O séc'lo - traça que medra
Nos livros feitos de pedra -
Rói o mármore, cruel.
O tempo - Átila terrível
Quebra co'a pata invisível
Sarcófago e capitel.
"Desgraça então para o espectro,
Quer seja Homero ou Solon,
Se, medindo a treva imensa
Vai bater ao Panteon...
O motim - Nero profano -
No ventre da cova insano
Mergulha os dedos cruéis.
Da guerra nos paroxismos
Se abismam mesmo os abismos
E o morto morre outra vez!
"Então, nas sombras infindas,
S'esbarram
Os
Nem no espaço, nem no chão...
As almas angustiadas,
Como águias desaninhadas,
Gemendo voam no ar.
E enchem de vagos lamentos
As vagas negras dos ventos,
Os ventos do negro mar!
"Bati a todas as portas
Nem uma só me acolheu!..."
- "Entra! -: Uma voz argentina
Dentro do lar respondeu.
- "Entra, pois! Sombra exilada,
Entra! O verso - é uma pousada
Aos reis que perdidos vão.
A estrofe - é a púrpura extrema,
Último trono - é o poema!
Último asilo - a Canção!..."
Bahia, 13 de dezembro de 1869.
Para além das outras possíveis
interpretações, ouço neste poema ecos precursores do simbolismo.
Além da aura mística do poema, o
tom fúnebre, há o caráter da carne que gradualmente se decompõe pelo poder
corrosivo do tempo (“Há no meu crânio enrugado/O fundo sulco traçado”).
O próprio personagem do poema, um
fantasma, já insere o poema na arbitrária classificação de simbolista, embora
muitos temas do romantismo, ao qual Castro Alves era filiado, se pareçam, se
confundam com o simbolismo.
Os temas lúgubres abundam:
“No ventre da cova
insano
mergulha os dedos
cruéis”
“As almas
angustiadas,
como águias
desaninhadas,
gemendo voam no ar”
Logo na primeira estrofe há um véu funéreo, esotérico, sobre
o poema:
- QUEM BATE? -
"A noite é sombria!"
- Quem bate? - "É rijo o tufão!...
Não ouvis? a ventania
Ladra à lua como um cão."
- Quem bate? - "É rijo o tufão!...
Não ouvis? a ventania
Ladra à lua como um cão."
O poema termina com um hino de
amor à poesia, pois ela é o elemento que nos conforma, nos supre de todas as
carências, nos acolhe, nos torna reis, sem a qual não passamos de fantasmas sem
existência:
"Bati a todas as
portas
Nem uma só me acolheu!..."
- "Entra! -: Uma voz argentina
Dentro do lar respondeu.
- "Entra, pois! Sombra exilada,
Entra! O verso - é uma pousada
Aos reis que perdidos vão.
A estrofe - é a púrpura extrema,
Último trono - é o poema!
Último asilo - a Canção!..."
Nem uma só me acolheu!..."
- "Entra! -: Uma voz argentina
Dentro do lar respondeu.
- "Entra, pois! Sombra exilada,
Entra! O verso - é uma pousada
Aos reis que perdidos vão.
A estrofe - é a púrpura extrema,
Último trono - é o poema!
Último asilo - a Canção!..."
Quis fazer apenas possíveis aproximações, sem caráter
doutrinário.
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Não se pode falar em literatura
brasileira. O tema já foi abordado por Afrânio Peixoto e Sérgio Buarque de
Holanda. A literatura no Brasil esteve sempre marcada por forte influência
européia. Os nossos clássicos todos beberam nessa fonte. Machado de Assis
começa o seu Brás Cubas citando Sthendal. Depois cita ainda Zola e Flaubert.
Assim é também com José de Alencar, Raul Pompéia, Joaquim Manuel de Macedo,
Aluísio Azevedo, e tantos outros. Não era literatura brasileira, mas um
arremedo da literatura européia, sobretudo do seu realismo. Mesmo depois da
Semana de 22, acentuada por forte matiz nacionalista, não se pode chamar nossa
literatura de brasileira, pois os modernistas foram fortemente influenciados
pelo dadaísmo, futurismo, surrealismo, expressionismo, impressionismo, todos da
vanguarda européia. Hoje em dia é muito difícil, dificílimo, traçar um panorama
da literatura no Brasil, devido ao grande número de poetas e escritores e a
diversidade de estilos, de temas e dicções. Porém, analisando alguns poetas
contemporâneos, pode-se dizer que sua poética é marcada pelo bilingüismo. Os
poetas de hoje inserem, em meio a frases ilógicas e ditos espirituosos, trechos
em inglês, ou qualquer outro idioma. Não sei se isso caracteriza uma tentativa
globalizada de diálogo com outras culturas (ao que parece, é esta a proposta)
ou simplesmente exibicionismo, como querem alguns críticos radicais. Além
disso, há o aspecto desconstrutivista, no sentido negador, negador das regras
gramaticais, numa crítica sociológica a tal postura, negador do discurso,
negador da própria poesia. Os poetas usam e abusam do fluxo de consciência,
abordagem não nova, herança dos surrealistas. O tom de seus poemas é jocoso,
dessacralizante. Mas devo ressaltar que o panorama é bastante vasto. Há poetas
que ainda fazem um grande apelo de cunho subjetivista, sentimental, e há até
quem ainda pratique sonetos sem emprestar-lhe uma roupagem moderna, como já
feito por poetas competentes como Mário Faustino e outros. O fato é que a nossa
literatura ainda é de colônia (como bem a chamou Afrânio Peixoto), bem como
nossa economia.
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Verifico em Rilke (Os Cadernos de
Malte Laurids Brigge) a presença do flâuner, termo cunhado por Baudelaire e que
significa aquele que passeia, ou melhor, que vaga pela cidade deliciosamente,
ao sabor do vento, como se estivesse aberto a todas as aventuras do espírito.
Baudelaire se referia ao
indivíduo do século XIX, que presenciava o advento do capitalismo e sua
conseqüente expansão industrial, a proliferação da multidão, que anulava
qualquer identidade, e as contradições inerentes a toda sociedade – no caso, em
Baudelaire a emoção e a razão.
O flâuner vislumbrava uma gama
infinita de possibilidades, dentro das quais ele se inseria como elemento
ativo, sempre à espera de algum acontecimento, já que o painel social de seu
tempo se alterara tão abruptamente com a efervescência do capital emergente.
Rilke, no livro citado, começa
relatando ser alguém do movimento, alguém presente no cerne da sociedade, porém
numa perspectiva depressiva, pois o personagem rilkeano Malte Laurids Brigge
sente a angústia existencial lhe corroendo as entranhas, o seu relato é um
relato pontuado pela presença do imponderável, que o aniquila num sopro em face
de sua tortuosa luz. É um ser que está à procura de si pelas ruas da cidade (no
caso, Paris, terra de Baudelaire), cidade que vê o mesmo quadro baudelairiano
se acentuar cada vez mais.
Assim ele começa:
“Então é aqui que as pessoas vêm
viver, eu antes diria que aqui se vem morrer”- ( a existência marcada pela
presença da morte, o ser-para-a-morte de Heidegger).
Em seguida descreve a cidade com
toda a sua diversidade férvida:
“Vi hospitais. Vi um homem
cambalear e cair. As pessoas rodearam-no, poupando-me o resto. Vi uma mulher
grávida.” – Os Cadernos de Malte Laurids Brigge
Em tudo a cidade que abarca todos
os rostos, todas as almas, todos os destinos, e em tudo o personagem-flâuner
vagando pelos passeios, entre o ir-e-vir frenético da multidão desencontrada.
Por todo o livro o personagem se
assemelha a um andarilho, captando do cotidiano flagras do absurdo do meramente
existir, exatamente como Baudelaire, com a diferença que no poeta francês o
vagar é alegre, festivo, e no alemão é lúgubre como o dobrar dos sinos à
meia-noite num subúrbio de onde se podem distinguir, afogadas na bruma, as
lápides, as cruzes gélidas de um brumoso cemitério.
Em Nietzsche há também a presença
do flâuner, do andarilho, só que nele o andarilho é alguém que se marginaliza
por não aceitar os padrões instituídos, é alguém que funda o próprio caminho,
ainda que pague um preço caro por isso.
Bem, na verdade há toda uma
filmografia e uma literatura sobre o assunto. No caso do cinema, há os consagrados
cult-movies, que expõem jovens rebeldes em carrões possantes sumindo no longe
das grandes estradas (basta lembrar de James Dean). Um clássico sobre o assunto
é o livro On The Road (Pé na Estrada), do beatnik Jack Kerouac. Jack chegou a
dizer, certa vez: “Deram-nos um mundo sujo e triste e nós não gostamos dele, e
resolvemos dar o fora”. Pois sua literatura, bem como o cinema deste contexto,
expressam justamente essa insatisfação diante do quadro social e a vontade
(utópica) de correr em busca de um novo mundo
Eu amo a cidade, amo cada
perspectiva, cada sarjeta exposta, cada antro ordinário, cada bar fétido
repleto de criaturas torvas, grotescas, dizendo grosserias, expondo a infinita
podridão de suas chagas morais decrépitas, debruçados nas latrinas dos
mictórios imundos vomitando a náusea que tentam afogar nos tragos de cachaça
barata que sorvem mas que lhes sobe a garganta, depois, num jorro de horror e
de repúdio à vida. Amo as praças da diversidade, do convívio democrático, da
pulsão elétrica, dos encontros fortuitos. Amo os marginais se esgueirando pelos
becos com seus passos lupinos, amo o solene aspecto das pessoas engravatadas
que carregam pastas cheias de relatórios, amo as mulheres que desfilam seu
primaveril ardor romântico, amo os imponentes arranha-céus entre os quais
pombos voam em arrojado mergulho no abismo (e eu que amo o abismo...), amo o
comércio ardendo em liquidações, amo o bulício dos carros zanzando pelas
avenidas imersas em fumaça de óleo diesel, amo tudo isso porque tudo isso é a
matéria-prima da minha poesia, tudo isso é aquilo que todos temem mas do qual
ninguém pode fugir, tudo isso é o nervo vivo e atiçado, tudo isso é o mistério,
o inalcançável mistério que permeia tudo: tudo isso é a vida...
Escrevi vários poemas em verso e
prosa que retratam a cidade, e o meu intuito foi não estilizá-la, mas deixá-la
falar em bruto no papel, da maneira como eu a via, como a querer fixar a
fugacidade do tempo nas linhas do poema.
Quis fazer uma aproximação entre
Baudelaire e Rilke na perspectiva do flâuner. Meras impressões de leituras
minhas.
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Releituras Rilkeanas

O poeta alemão Rilke
Foi me detendo em releituras
insones pelas madrugadas invernais de Minas que me deparei com este verso das
elegias duinenses:
“Não é tempo daqueles
que amam libertar-se do objeto amado e superá-lo, frementes?”
Drummond, Bandeira e Vinicius,
bem como muitos outros, eram leitores contumazes de Rilke, que em 1922 estava
muito difundido no Brasil (Vinicius chegou a parafrasear o poema do poeta
alemão A Hora Grave).
No verso acima, desnecessário
dizer, a noção desmaterializada do amor se faz ver por si.
Quanto nossos poetas nos ensinam
e o quanto muitos de nós não aprendem...
Nas Elegias de Duíno (coleção de
dez elegias de cunho metafísico escritas de 1912 a 1922 e cujo título, Duíno, é
o nome do castelo às margens do Adriático onde o poeta esteve certa vez), o
poeta alemão, logo no primeiro verso da primeira elegia, explode:
“Quem, se eu
gritasse, entre as legiões dos Anjos me ouviria?”
Todo o poema é varado por um
sopro de solidão e desamparo:
“O intuitivo animal
logo adverte que para nós não há amparo neste mundo definido.”
Somente o herói, aquele que
distingue entre o aqui e o lá, entre o substancial e o insubstancial, o
artista, o filósofo, o que se desapega do reino do aqui, permanece:
“O herói permanece,
sua queda mesma foi um pretexto para ser - nascimento supremo.”
Não há chão para os pés humanos, somente os anjos sabem,
pois que transcendem o aspecto fenomenal do mundo e podem contemplar, de uma
perspectiva atemporal, a tragédia da vida humana em seu périplo ao meramente
existir e consumar-se nessa existência.
Tudo é fluido, tudo se desvanece, mesmo as coisas mais
concretas:
“Exalamos nosso ser;
e de uma a outra ardência nos desvanecemos.”
A beleza é apenas uma ilusão, uma reluzente ilusão, porque
condenada a sumir-se:
“A aparência transita
sem descanso em seu rosto e se dissipa,”
Tentamos reter as coisas com as mãos, mas, areia fina, ela
flui para o espaço:
”O que é nosso flutua
e desaparece.”
A distância entre o homem e Deus
aumenta, grossa parede que os ecos frágeis das criaturas não conseguem
ultrapassar.
Em outra elegia Rilke diz:
“Em parte alguma,
bem-amada, o mundo existirá, senão interiormente.”
O tempo flui dentro do ser, não
fora. A dimensão temporal nos atravessa a carne. Assim Heidegger, buscando lá em Santo Agostinho
(livro sobre o Tempo), canta e Rilke reforça.
Em toda parte reina essa aura de
desamparo, onde o homem, num palco ilusório, encena seu adeus, e onde Deus,
distante, ignora os apelos dos mortais. Somente os anjos sabem e por isso
terrivelmente riem de nós, porque vivem bem acima de tal estado.
O poeta irrompe neste brado:
“Quem, no entanto,
por tão pouco, ousaria ser?”
Quem, em meio a tal mundo,
ousaria se realizar plenamente? A existência nua e crua que se revela no
horizonte do estar-aí? Quem ousaria? Sim, porque ser é uma tarefa árdua, digna
dos heróis. Digo ser no sentido da revelação interior, da verdade que habita cada
alma, verdade camuflada cotidianamente. Quem ousaria se livrar das máscaras que
encobrem o ser, as qualificações profissionais que tornam o ser em advogado,
engenheiro, carteiro, etc, e não o deixam simplesmente ser, a fé que o livra de
se encarar e se aceitar diante dos acontecimentos, quem ousaria parar por um
momento que fosse e olhar para dentro de si, bem no seu íntimo, e dizer: “Eu
sou!”? É a pergunta rilkeana, que possui ecos heideggerianos, pois a poesia de
Rilke é a tradução poética da filosofia de Heidegger.
Rilke diz:
“E de repente, neste
árduo Nada,
o ponto inexprimível
onde a insuficiência pura
incompreensivelmente
se transforma - e salta
Àquela vazia
plenitude
onde o cálculo de
muitos algarismos
se resolve sem
números”
É no nada, então, no nada que o
ser se revela, porque aí encontra-se despido, nu, em face da existência e pode
então dizer: “Eu sou”.
Assim Heidegger, em O que é Metafísica, diz:
“Somente na clara
noite do nada da angústia surge a originária abertura do ente enquanto tal: o
fato de que é ente - e não nada.”
E mais:
“Ser-aí quer dizer:
estar suspenso dentro do nada.”
Em relação às máscaras que encobrem o ser, Heidegger diz:
“Quanto mais nos
voltamos para o ente em nossas ocupações cotidianas, tanto menos nós o deixamos
enquanto tal, e tanto mais nos afastamos do nada.”
Nossas ocupações nos afastam de
nossa essência verdadeira, camuflam nosso ser, e nos tornamos existências
inautênticas, espelhos das convenções sociais, e não se seres originais.
Quanto ao desamparo rilkeano,
Heidegger diz:
“Não resta nenhum
apoio. Só resta e nos sobrevém - na fuga do ente - este “nenhum”.”
Compare-se com os versos de rilke da primeira elegia:
“Para nós não há
amparo neste mundo definido.”
Assim é que Rilke é a tradução
fiel da filosofia de Heidegger, que expressa o ser em seu metafísico desamparo,
nu, despido, diante de sua verdade, revelação, a encontrar-se num mundo cuja
perspectiva é o tempo que aponta para a morte, o ser-para-a-morte
existencialista.
E aqui termino esta breve análise
de Rilke, aproximando-o de Heidegger.
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UMA BREVE NOTA SOBRE CARPINEJAR
Carpinejar (na verdade, Fabrício
Carpi Nejar, pois o poeta é filho do acadêmico Carlos Nejar) estreou na poesia
com o livro As Solas do Sol. Aí o poeta faz jorrar, em verve delirante, o fluxo
espermático de seus versos, que vêm à luz da criação como formas vivas,
lúcidas, condensadas. Sim, porque concisão é seu nome.
Os poemas desse livro lembram
haicais, são quase epigramáticos, concentrando em si a densidade de uma
imagética fantástica:
Um rosto conhecido
usou o desconhecido
do teu rosto.
Ou ainda:
Os
astros enfermos
aguardavam em fila
um leito no firmamento.
São pequenos poemas onde se pode
ler certa postura jocosa diante do poema, numa atitude dessacralizante, mas que
revela também a total impotência do poeta diante das forças arcaicas do poema
que o domina e o devora. Em certos trechos há ecos de Leminski e Cacaso:
A noite urinava
nas paredes
do
quarto.
Lendo-o não pude evitar a comparação com outro grande poeta,
Octavio Paz, em seu livro “Libertad Bajo Palabra”, onde se lê:
O dia abre sua mão
Três
nuvens
E estas poucas palavras.
E mais:
A luz não pestaneja
o tempo se esvazia de minutos
um pássaro se deteve no ar.
A comparação é válida, como se
pode ler. Ambos são poetas de riqueza vocabular que não se derramam em
verborragia, mas se detêm na precisão quase cirúrgica de dizer o absolutamente
necessário em três linhas, de prender o infinito numa estrofe.
Trechos Kafkianos
Kafka reúne, em sua literatura, o
singelo e abstrato toque do maravilhoso e do absurdo. As instituições são
analisadas por ele em sua forma mais grotesca: as práticas disciplinares e
punitivas. Vê-se, por exemplo, em A Metamorfose , a opressão de tais instituições
sobre um indivíduo e a maneira sórdida como elas o transformam e o reprimem.
Assim é que Gregor Samsa, um belo dia, descobre-se um inseto nojento e
repelente. Até para a sua própria família torna-se ele um peso e é obrigado a
viver isolado, escondendo do mundo o monstro em que se transformara, ou melhor,
fora transformado. Em O
Processo , aí são as maquiavélicas maquinações das leis e seus
códigos coercitivos que se voltam contra o sujeito livre para roubar-lhe sua
completa autonomia e transformá-lo num títere servilmente manipulado. Impotente
diante dos trâmites legais e seu poder policial, ele se amesquinha. Em O Castelo , a denúncia de
que não há mobilidade social, somente a há nos discursos, nas teses ou nas
ladainhas de velhos esquerdistas de caserna aposentados. Não se chega ao topo,
pois as barreiras são intransponíveis, e os socialmente desfavorecidos rastejam
na lama boçal de sua miséria e humilhação, sem sequer conseguir falar com seus
“superiores”. Em O Artista
da Fome eclode o grito de protesto contra uma sociedade que não respeita seus
artistas e os transforma em absurdo espetáculo de definhamento público. Há aí
um modo peculiar kafkiano de encarar o corpo não mais como simbólico, mas como
forma indébita de apropriação dos regimes econômicos predominantes. Em tudo o
absurdo, o absurdo de existir e estar-se diante de tais calamidades, obrigado a
enfrentá-las. A vida é o maior absurdo, digno de um conto surrealista. Assim é
que Kafka compõe, em seus textos, a tessitura de uma trama rica, bela e
precisa, justamente porque humana. E tudo nele é genial como um poema que se
desvanece num poente oblíquo.
O Vôo Literário de Sérgio Sant’Anna
Grande nome da prosa
contemporânea, Sérgio Sant’Anna me deslumbra com sua capacidade de nos emergir
nos abismos da psique. Sua escrita possui uma marca, que é a marca de todo
grande gênio: a do experimentalismo. Nada há nela de definitivo. É como se ele
estivesse sempre buscando. Em alguns (vários) momentos ele encontra, como no
magnífico Vôo da Madrugada. Eu sem duvida gostaria de estar nesse vôo. Nele
detecto ressonâncias machadianas, dostoiévskianas. De Machado há a pena da
galhofa e a tinta da melancolia, e do escritor russo há o corajoso e heróico
enfrentamento de nossas pulsões inconscientes, o desvelamento das máscaras para
o cru encarar dos fatos.
Sérgio é responsável por umas das
melhoras páginas da nossa literatura, como em seu já consagrado Concerto de
João Gilberto no Rio de Janeiro, ou A Senhorita Simpson. Literatura fina, de
refinado humor, humor intelectual, exigente, que faz com que o leitor realize
uma leitura atenta e que (marca de todo bom escritor – leia-se Pessoa, o
desassossegador de almas) transforma todo incauto que o leia, pois toda boa
literatura faz com que uma pessoa nunca mais seja a mesma após sua leitura.
Ao lado de João Gilberto Noll,
Raduan Nassar e outros de semelhante pedigree, Sérgio é obrigatório para quem
não se contenta com a mera narrativa estilizada e quer ir além das formas,
mesmo que esse ultrapassamento resulte em inevitáveis choques estéticos e
metafísicos.
A Prosa Mnemônica de Marcel Proust
Proust tenta reter, na escrita
fina de sua prosa poética, o tempo e seu arsenal de lembranças, como se o tempo
fosse o depositário histórico do mundo.
Baseado nas idéias do filósofo
Henri Bergson, cujas raízes, por sua vez, estão em Santo Agostinho e
sua célebre teoria sobre o tempo, Bergson diz que as coisas, os lugares, os
cheiros, as músicas são como mágicos e encantados porta-vozes do passado,
querge quando solicitados por nós. Todas essas coisas nos evocam o passado e o
atualizam no presente. Quando sentimos um cheiro que nos recorda uma pessoa,
voltamos ao passado, ao lado dessa pessoa. Quando passamos em frente a um lugar
onde vivemos uma situação de forte presença, tal situação vivida se refaz na
nossa memória pelo seu poder de presentificação E assim é com a música, com
tudo. Assim o passado assume a dimensão de um arquivo-vivo, sempre aberto
quando solicitado.
Agostinho diz que não há
separações entre passado, presente e futuro, pois o passado está sempre
redivivo através da memória, o presente é o agora-sendo e o futuro existe em
potência em nós, nas nossa idealizações, nos nossos planos, projetos.
Em Proust há a dor das coisas
passadas. É preciso citar Camões: “A grande dor das cousas que passaram...” A
literatura é a grande e sublime portadora do passado e o que o autor tenta é
reter nas letras a passagem involuntária do tempo que marcha.
Há um tom expressionista às vezes
em sua prosa de pura dicção poética, mas Proust, como Balzac e outros realistas
franceses, ocupa-se em criticar a sociedade de seu tempo, sociedade eivada de
preconceitos morais, vestida com a máscara da hipocrisia velada de refinamentos
de costume, num patético teatro de aparências moventes.
Quando se amou uma pessoa e ao
lado dessa pessoa se viveu toda uma vida de ricos conteúdos, quando se sente a
presença dessa pessoa amada através das ressonâncias da memória e suas
associações e o passado nos penetra dentro do cinema, como dizia Drummond,
quando ouvimos uma música que foi a trilha sonora do nosso amor (e todos têm a
trilha sonora de seus amores), quando os lugares representam a beleza de uma
recordação, como se, em meio a tantas coisas fugazes, efêmeras, quiséssemos
mantê-la viva, mesmo sabendo que vamos passar, que tudo vai passar, quando tudo
isso acontece, então se sente o quanto Proust é fecundo e o quanto sua obra nos
preenche de uma beleza possuída, e então, nas lilases fulgurações do
pôr-do-sol, sentimos que nada é vão e que tudo renasce, como o astro fumegante,
nas manhãs libertas.
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