Apocalípticos e Integrados (Em desesa da cultura de massa)
Para os que se atêm ao velho e viciado discurso acadêmico que, no campo da estética, ainda se agarra aos epítetos adornianos como perspectiva crítica, vale lembrar que Umberto Eco, ninguém mais ninguém menos do que o maior semiótico da história, em seu livro Apocalípticos e Integrados, faz uma interessante defesa da tão difamada cultura de massa.
Eco começa por distinguir aqueles que são de espírito mais flexível, mais abertos em relação às inovações artísticas, os integrados, e os que defendem posturas rígidas tipicamente conservadoras e são refratários a qualquer busca por uma nova expressão estética, os apocalípticos.
Quando penso em apocalípticos impossível não virem à minha cabeça as famigeradas bienais de São Paulo, vítimas de críticas de autores reconhecidos, como Ferreira Gullar. Gullar se refere sempre às bienais de sampa como algo que não deve ser levado a sério, quase uma fraude. Certa vez afirmou que as instalações de uma das bienais eram uma tentativa de chamar a todos os que as visitavam de palhaços. Impressiona esse tipo de postura vinda de um homem culto como o poeta. Ele não sabe que o papel da arte de vanguarda é provocar o estabelecido, é abalar as percepções, é questionar o lugar das coisas. Por que um urinol (para citar aqui o caso emblemático de Duchamp) tem que ser urinol e não outra coisa? É esse o papel da arte contemporânea. E, claro, quando se entra num lugar onde as coisas fogem à ordem costumeira e adquirem o status de absurdo, nós, os seres humanos acostumados a um universo que se pauta por uma pretensa ordem, ficamos chocados. E a idéia é essa mesma: chocar. Ora, se o senhor Ferreira Gullar se sente tão tocado assim, é sinal inequívoco de que a arte contemporânea cumpriu sua missão.
Gullar pisa na bola às vezes. Pisa na bola quando lança seus dardos contra a poesia concreta. Ele demonstra que seu entedimento do que seja poesia concreta é mínimo. Aliás, ele nunca fez poesia concreta stritu senso. Ele considera que os concretistas quiseram abolir a linguagem e que isso era impossível. Sim, tem razão, abolir a linguagem é impossível realmente, até porque, ao fazê-lo, cria-se uma outra linguagem: a linguagem da não-linguagem. O problema é que os concretistas jamais pretenderam abolir a linguagem, pelo contrário, romperam com os padrões lineares, discursivos, líricos da poesia anterior e elevaram a linguagem ao nível da linguagem-em-si. Só que Gullar nunca entendeu isso.
Mas o que quero abordar é um outro assunto. Referi-me ao Gullar porque ele se encaixa naquilo que Umberto Eco chamou de apocalíptico e vejo que há por aí, nos salões universitários, jovens cheios de idéias que se voltam para a cultura de massa com o intuito de julgá-la com base na filosofia de Adorno. O primeiro problema é que, a exemplo de outros pensadores, criou-se uma igrejinha adorniana onde todos têm que dobrar os joelhos no altar de suas idéias, se esquecendo de que filosofia é uma coisa e filosofar é outra. Não se pode ser um papagaio de repetição, há que se alçar vôos mais altos. O segundo é que toda filosofia é datada historicamente. A de Adorno teve sua época e contexto bem definidos. Hoje em dia as coisas são outras. Não se pode julgar o presente olhando para o passado.
O centro das idéias adornianas é, grosso modo, o seguinte: o mercado cria, inventa autores de qualidade discutível. Mais do que isso: altera as percepções dos ouvintes para guiá-los a um consumismo cego, sem que lhes seja possível adquirir uma postura crítica em relação àquilo que ouvem (Adorno se referia especificamente à música). Dessa forma, milhões de maus artistas são lançados ao mercado para um público dócil e acrítico que irá consumi-los de acordo com a demanda. Lógico, é o que ocorre de fato, bastar ver a mídia e seus axés rebolativos, seus pagodes, etc. O problema é que essa crítica se estende de forma dogmática a todos. E, claro, como em tudo, há exceções.
Sempre achei problemática essa questão. Há filmes considerados "comerciais" cuja qualidade é indiscutível, assim como há outros adorados como cults que são de uma miopia e de uma baixeza gritantes. Quando o assunto é novela, aí a coisa apela para o histerismo e os discípulos de Adorno gritam que é alienação. Mas o problema é que há filmes e filmes, novelas e novelas. Já se sabe hoje que as novelas são o depósito dos costumes de um povo e que o Brasil faz a melhor novela do mundo. Só que os cachorrinhos de Santo Adorno não sabem disso.
Bem, mas Umberto Eco sabia e tratou de defender a cultura de massa.
Vou reproduzir aqui as acusações contra os mass media e a defesa de Eco.
a) Os mass media dirigem-se a um público heterogêneo e especificam-se segundo "médias de gosto" evitando as soluções originais.
b) Nesse sentido, difundindo por todo o globo uma "cultura" de tipo "homogêneo", destroem as características culturais próprias de cada grupo étnico.
c) Os mass media dirigem-se a um público incônscio de si mesmo como grupo social caracterizado; o público, portanto, não pode manifestar exigências face à cultura de massa, mas deve sofrer-lhe as propostas sem saber que as sofre.
d) Os mass media tendem a secundar o gosto existente, sem promover renovações da sensibilidade.
e) Os mass media tendem a provocar emoções intensas e não mediatas.
f) Os mass media, colocados dentro de um círculo comercial, estão sujeitos à lei da "oferta e da procura".
g) Mesmo quando difundem os produtos da cultura superior, difundem-nos nivelados e "condensados", a fim de não provocarem nenhum esforço por parte do fruidor.
h) Em todo caso, também os produtos da cultura superior são propostos numa situação de completo nivelamento com outros produtos de entretenimento.
i) Por isso, os mass media encorajam uma visão passiva e acrítica do mundo.
j) Os mass media encorajam uma imensa informação sobre o presente (reduzem aos limites de uma crônica atual sobre o presente até mesmo as atuais reexumações do passado, e assim entorpecem toda consciência histórica.
k) Feitos para o entretenimento e o lazer, são estudados para empenharem unicamente o nível superficial da nossa atenção.
l) Os mass media tendem a impor símbolos e mitos de fácil universalidade.
m) Para tanto, trabalham sobre opiniões comuns.
n) Por isso se desenvolvem, ainda quando aparentam ausência de preconceitos, sob o signo do mais absoluto conformismo no campo dos costumes.
o) Os mass media apresentam-se, portanto, como o instrumento educativo típico de uma sociedade de fundo paternalista mas, na superfície, individualista e democrática, e substancialmente tendente a produzir modelos humanos heterodirigidos.
Resumidamente, são essas as "peças de acusação". Passemos agora à brilhante defesa de Eco.
a) A cultura de massa não é típica de um regime capitalista. Nasce numa sociedade em que toda a massa de cidadãos se vê participando, com direitos iguais, da vida pública, dos consumos, da fruição das comunicações.; nasce inevitavelmente em qualquer sociedade de tipo industrial.
b) A execrada cultura de massa de maneira alguma tomou o lugar de uma fantasmática cultura superior; simplesmente se difundiu junto a massas enormes que, tempos atrás, não tinham acesso aos bens de cultura.
c) É verdade que os mass media propõem , maciça e indiscriminadamente, vários elementos de informação, nos quais não se distingue o dado válido do de pura curiosidade ou de entrenimento; mas negar que essa acúmulo de informação possa resolver-se em formação significa professar uma concepção um tanto pessmista da natureza humana e não acreditar que um acúmulo de dados quantitativos, bombardeando de estímulos as inteligências de uma grande quantidade de pessoas, não possa resolver-se, para algumas, em mutação qualitativa.
d) A objeção de que a cultura de massa também difunde produtos de entretenimento que ninguém ousaria julgar positivos (estórias em quadrinhos de fundo erótico, cenas de pugilato, programas de TV de perguntas e respostas que representam um apelo aos instintos sádicos do grande público), replica-se que, desde que o mundo é mundo, as multidões amaram os circenses; e parece natural que, em mudadas condições de produção, os duelos de gladiadores, as lutas dos ursos et similia tenham sido substituídos por outras formas de entretenimeno "menores", que todos vituperam mas que não deveriam ser consideradas como um sinal particular da decadência dos costumes.
e) Uma homogeneização do gosto contribuiria, no fundo, para eliminar, a certos níveis, as diferenças de casta, para unificar as sensibilidades nacionais, e desenvolveria funções de descongestinamento anticolonialista em muitas partes do globo.
f) A divulgação dos conceitos sob forma de digest evidentemente teve funções de estímulo, dado que os nossos tempos assistiram ao fenômeno definido, na América do Norte, como a revolução dos paperbacks, ou seja, a difusão, em enormes quantidades, de obras culturais validíssimas a preços muito baixos e em edição integral.
g) É verdade que a difusão dos bens culturais, mesmo os mais válidos, quando se torna intensiva, embota as capacidades receptivas. Trata-se, porém, de um fenômeno de "consumo" do valor estético ou cultural comum a todas as épocas, só que hoje se realiza em dimensões macroscópicas.
h) Os mass media oferecem um acervo de informações e dados acerca do universo sen sugerir critérios de discriminação; mas, indiscutivelmente, sensibilizam o homem conteporâneo frente ao mundo; e na realidade, as massas submetidas a esse tipo de informação parecem-nos bem mais sensíveis e participantes, no bem e no mal, da vida associada do que as massas da antiguidade, propensas a reverências tradicionais face aos sistema de valores estáveis e indiscutíveis.
i) Por fim, não é verdade que os meios de massa sejam estilística e culturalmente conservaores. Pelo fato mesmo de constituírem um conjunto de novas linguagens, têm introduzido novos modos de falar, novos estilemas, novos esquemas perceptivos.
São esses os tópicos essenciais do livro de Eco.
Assusta notar que, mesmo com a total relevância do pensamento de Umberto Eco, sua defesa é ignorada pelos entusiastas da comunicação. Talvez seja pelo fato de que toda adoração impede o senso crítico, assim os adornianos de plantão só dão ouvidos ao que repetem entre si, em sua ortodoxia anuladora.
Assusta notar que, mesmo com a total relevância do pensamento de Umberto Eco, sua defesa é ignorada pelos entusiastas da comunicação. Talvez seja pelo fato de que toda adoração impede o senso crítico, assim os adornianos de plantão só dão ouvidos ao que repetem entre si, em sua ortodoxia anuladora.
Vagner Rossi
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