Bakhtin, um Precursor
O lingüista russo Mikhail Bakhtin (1895-1975) foi um precursor da lingüística moderna, sobretudo antecipou muitas das idéias da sociolingüística.
Por causa de sua dissidência política em relação ao autoritarismo de Stálin, assinou algumas de suas obras com o nome de discípulos e amigos seus, como ocorreu com sua obra principal Marxismo e Filosofia da Linguagem, em que assina Volochínov.
Bakhitn distingue duas concepções de língua: a do subjetivismo idealista, onde a língua é apenas um fator psíquico, o sujeito falante totalmente desvinculado do processo histórico, e a do objetivismo abstrato, que desdenha do fenômeno da fala individual, preconizando a lingua como sistema de regras ao qual o sujeito se submete.
Influenciado pela filosofia marxista, Bakhtin, concentrando suas críticas em Saussure, afirma a língua como fenômeno social, ideológico. A fala está ligada às condições de comunicação que, por sua vez, estão ligadas às estruturas sociais.
Bakhtin afirma que todo signo é ideológico, logo toda modificação da ideologia acarreta numa modificação da língua. Assim expressa uma concepção dinâmica da língua, em que esta acompanha dialeticamente as transições históricas, sendo reflexo delas.
A palavra que define a filosofia lingüística de Bakhtin é diálogo. Assim ele não consegue compreender qualquer tipo de comunicação onde não ocorra intercâmbio de idéias, onde não fluam as idéias livremente e onde o outro não tenha lugar fundamental. Esse tipo de linguagem é fundamentalmente dos regimes democráticos, ao contrário do outro, onde só há imposição de idéias, sendo o interlocutor um simples depósito das "verdades" de outrem.
Ou seja, a língua não é um sistema de regras definíveis, como se fosse um fóssil passível de decifração, nem uma atividade solitária e subjetiva, mas sim um organismo vivo, dinâmico, em total interação com os eventos históricos, onde, num regime essencialmente democrático, o sujeito que fala recebe e aceita a voz do outro, num rico e dialético processo de intercâmbio, onde a verdade no sentido dogmático não possui mais lugar e sim a liberdade e a troca.
Bakhtin possui outros livros interessantes, como o consagrado A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento - O Contexto de François Rabelais -, um estudo da obra de Rabelais sob o ângulo da carnavalização e da cultura do riso em contraposição ao universo sério e fechado da Idade Média, além de um outro livro sobre o novelista russo Dostoiévski.
Vagner Rossi
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