O Castelo de Kafka - Possíveis Interpretações
O livro O Castelo, de Kafka, é uma das obras-primas do autor, ao lado de A Metamorfose e O Processo.
Kafka pode ser incluido, ao lado de Albert Camus, no rol dos "filósofos" do absurdo, pois denuncia a estranheza a que toda existência está sujeita, lançada a um mundo sem escolha, obrigada a se engajar e construir seu destino, preocupada em conquistar sua liberdade, mesmo que seja de forma violenta, inserida numa sociedade cujas forças políticas a manipulam, tornando-a um boneco de acordo com as conveniências do poder constituído. Isso é muito presente em O Processo, tanto quanto em Camus e seu O Estrangeiro. O mundo é absurdo e só se sai dele pela fé, ou pela adesão política, ou pela sublimação estética, filosófica, ou pelo fim (suicídio).
O livro O castelo narra a história de um sujeito que tenta chegar até o topo para falar com as pessoas que lá estavam, mas todas as suas tentativas são frustradas e ele acaba por sucumbir.
Bem, alguns fazem uma interpretação gnosiológica desse livro, baseados na filosofia de Kant.
Kant empreendeu uma crítica à razão no campo do entendimento provando que ela está sempre presa ao mundo empírico, não consegue, portanto, abarcar uma compreensão maior das coisas, como Deus, a alma, etc. O filósofo diz que nosso conhecimento só chega até os fenômenos, a aparência das coisas, mas que a coisa-em-si, a essência, permanece desconhecida para nós.
Claro, estou simplificando. A filosofia de Kant, conhecida como criticismo, é muito mais complexa do que isso e exigiria uma tese para destrinchá-la, o que não está à altura de quem escreve estas páginas. Mas o principal de seu pensamento é essa idéia de que vivemos perseguindo um conhecimento mais profundo de tudo, mas nossa razão é limitada e nunca chegamos lá, ficamos sempre no mundo visível.
É essa a interpretação gnosiológica: o personagem kafkiano é um metafísico alimentando a ilusão de que chegará à coisa-em-si, mas sem conseguir.
Há outra interpretação mais corrente, que é a sociológica. Segundo ela, o personagem de O Castelo é um proletário tentando ascender socialmente, mas as instituições lhe fecham as portas, impedindo-lhe a mobilidade social.
No Brasil Lima Barreto empreendeu algo parecido: uma análise de como as forças políticas conservadoras e elitistas impedem a chegada do povo a uma condição melhor. Elas vão minando os sonhos das pessoas, fechando-lhes portas e mais portas, negando-lhes emprego, sabotando seus ideais, até que, de golpe em golpe, o indivíduo se entrega, desiste e abraça a miséria a que foi condenado.
Isso está em Recordações do Escrivão Isaías Caminha, magistral livro de Lima Barreto, um dos maiores intelectuais deste país, sofrido, massacrado pela penúria econômica e pelo abuso do álcool.
Os contos de Kafka são tristes, tão tristes quanto a existência humana. Lendo-os nos identificamos e percebemos o absurdo que é estar vivo e o absurdo maior de ver que há privilégios de casta mantidos à força de violência através de manipulações. Qualquer semelhança com o real, portanto, não é mera coincidência.
Vagner Rossi
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