Ortega Y Gasset
Pretendo aqui abordar os tópicos principais da filosofia de Ortega Y Gasset e sua importância para a contemporaneidade, enquanto uma práxis libertadora e humanista.
RAZÃO INSTRUMENTAL
Ortega Y Gasset enceta uma crítica radical à razão instrumental. Segundo ele, o que predomina é a fria lógica de uma razão voltada para a produção quantificável, que tem a pretensão de ordenar o universo, de moldá-lo autoritariamente, sempre voltada para os interesses do Estado burguês administrativo (lê-se Weber).
O autor não desconsidera a importância dessa razão quando ela consegue promover um maior conforto aos homens, como no caso da tecnologia, mas afirma que tal razão é desumana à medida em que se volta contra os indivíduos para manipulá-los e guiá-los de acordo com a demanda de um mercado que visa apenas ao número, não à qualidade.
A MERA OBSERVAÇÃO DOS FATOS COMO CRITÉRIO DA CIÊNCIA
Ortega, remontando a Galileu, critica a ciência pelo fato de esta crer que, pela simples observância da natureza, se pudesse chegar às suas verdades. Claro que isso não ocorre, é preciso que sejam feitas experiências, ou melhor, é necessário submeter a natureza ao escrutínio e à prova científicos. Os fatos observáveis por si sós não revelam nada, somente a experiência. Galileu afirmou, em sua frase mais famosa, que a natureza estava escrita em linguagem matemática, não significando com isso outra coisa que ter de aplicar os dados da matemática à natureza para extrair dela um conhecimento verdadeiro, em momento algum sugerindo simplesmente a observação.
A IMAGINAÇÃO CIENTÍFICA
Ortega afirma que a ciência sempre desprezou a metáfísica como algo digno de sonhadores, de loucos, místicos e inspirados. A capacidade imaginativa seria simplesmente um engenho humano no sentido das criações do espírito, sejam poemas ou telas, etc. Mas Ortega afirma que o cientista emprega a imaginação em seus métodos tanto quanto o poeta em seus poemas.
De fato, toda a criação inumerável não é apenas o plano concretizado de um ideal. Tudo, antes de se tornar plasmado no mundo das contigências, antes é um ideal, uma imaginação, mesmo as obras mais férreas e mais vistosas. Se considerarmos, como os crentes, que o mundo é criação de Deus, então teremos de aceitar que o mundo é obra do pensamento absoluto de um Ser supremo, o mundo é um pensamento tornado real, tangível, pela obra mágica de uma divindade criadora e poderosa.
VIDA COMO PROJETO
Ortega diz que todas as coisas que compõem o universo têm o seu ser já dado, por isso são coisas. Isso aconteceria com o homem se ele se limitasse a uma mera condição biológica, terrena, mas o homem não é uma coisa, é um ser que possui a capacidade de trasncendência, além disso, sua natureza nunca é fechada, pronta, pois isso o aproximaria das coisas, mas sim por se fazer, o que leva Ortega a afirmar que o homem nunca é, mas é um crescente "sendo". Outra coisa não afirmou Nietzsche quando, no Zaratustra, canta que o homem "é uma ponte entre o animal e o além-do-homem". Cabe ressalvar que não se trata aqui de um eu fechado em seu mundo, solipsista, mas um eu que se constrói em torno de outros eus, cuja identidade só se afirma em contato com esses eus (eu é um outro, como disse Rimbaud). A vida desse eu é construída em torno de suas circunstâncias, dái a frase de Ortega "eu e minhas circunstâncias"
CRENÇA E DÚVIDA
Ortega afirma que para que o homem parta em busca de seu destino é preciso que haja crença, mas não a crença religiosa e sim, o fato dele acreditar que as coisas as quais ele deseja são preferíveis a outras. A dúvida surge quando esse universo de crenças fica abalado, aí só cabe a dúvida quanto ao que ele deve ou não fazer.
AUTENTICIDADE E INAUTENTICIDADE (ENSIMISMAMIENTO)
Aqui Ortega faz uma análise sociológica bastante fecunda, que encontra eco em Marx, nos pensadores da Escola de Frankfurt e em Heidegger.
Ele diz que há duas formas de existência: uma em que o sujeito é arrastado pelas circunstâncias, levado pelas massas, sem critério, sem escolha, de forma acrítica, o que caracteriza a inautenticidade (a existência inautêntica heideggeriana), a outra em que o indivíduo assume uma postura crítica diante das coisas e decide sobre seu próprio fazer, ditando seu modo de existir (a existência autêntica de Heidegger). Para que esta última aconteça é preciso que o sujeito entre num modo que Ortega chamou de ensimesmamento, ou seja, um movimento de interiorização não-egoísta, mas crítico, que lhe permita se libertar dos ciclos das massas mergulhadas na inconsciência. Numa palavra, é preciso ser desperto e crítico diante dos fatos do mundo para não se ser guiado pelos ardis e tramóias do sujo jogo político e das convenções mundanas.
INCAPACIDADE DA RAZÃO CIENTÍFICA PARA COMPREENDER A EXISTÊNCIA HUMANA
Nesta parte Ortega afirma que a ciência, a razão instrumental, lida com fatos estáticos. Para compreendê-los, faz uma espécie de corte no espaço e no tempo, cristalizando-os a fim de poder conhecer para controlar. O problema é que esse tipo de abordagem funciona com dados fixos, pétreos, mas não com a existência humana, simplesmente porque ela é um organismo vivo, dinâmico, dialético, evolutivo, um "sendo".
A RAZÃO VITAL
Ortega, diante da crítica à razão instrumental, apresenta como modelo alternativo a razão vital.
Ele não se ilude, sabe perfeitamente que o mundo foi educado na razão dominante, portanto, livrá-lo desse modelo tradicional seria tarefa bastante difícil, mas não impossível.
Razão vital, como o próprio nome indica, é feita na vida e com a vida, pressupõe a total autonomia do homem diante do seu destino e do mundo, adotando suas escolhas com base em suas próprias convicções, liberto do jugo de uma ciência desumanizante em sua raiz, construindo sua liberdade e seu ser.
Sou estudiosa de Ortega. Gostei desse Blog.
ResponderExcluirOlá, professora, grande honra receber sua visita, que retribuí indo ao seu blog, do qual igualmente gostei. Esclareço que os textos que publico aqui não têm a pretensão do estritamente acadêmico, são ensaios, ponderações, esboços sobre as idéias desses heróis do espírito chamado filósofos.Forte abraço.
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