Linguagem ou Tirania - Uma Análise Política do Fenômeno Lingüístico

A linguagem nunca se constituiu apenas como simples instrumento mecânico de troca de signos entre os participantes de uma comunidade social, tampouco é, como alguns acreditaram, um “sistema de regras observáveis” ao qual o sujeito se submete, mas é a superestrutura ideológica do mundo; como tal, certas relações de poder no discurso – já bastante analisadas, diga-se de passagem – devem ser detectadas no próprio fenômeno lingüístico.

A linguagem deveria ser um complexo de interação entre dois falantes, onde deveriam ser obedecidas certas regras, como o direito do interlocutor expor suas concepções sobre o assunto dado, bem como o de permitir que o outro também o faça. Acontece que não é isso o que se verifica na prática, onde a relação que se estabelece é puramente vertical, sendo que um domina a fala e impõe dogmaticamente suas pretensas verdades universais, sendo o outro um mero depósito.

A linguagem é um organismo vivo e não um sistema pétreo, um conjunto de regras observáveis e imutáveis. Ela obedece às transições históricas, e isso é lógico quando se compara o modo de falar do século XVIII com a contemporaneidade e vê-se que as mudanças são consideráveis.

Mas o que me chama a atenção é o exercício de um poder através da fala

Estou querendo dizer que a linguagem muitas vezes camufla um certo abuso autoritário no cotidiano dos falantes sob a aparência de diálogo. Este, tomado na acepção do seu significado, sequer existe, pois diálogo pressupõe duas (días) razões (logos) trocando idéias num entendimento mútuo e numa dialética libertária. Mas no cotidiano o que vemos é um palanque onde um falante impõe ao outro sua doutrina absoluta sem lhe possibilitar o direito à réplica. O sujeito dominante no discurso não dá ouvidos ao outro mesmo que consinta a isso simplesmente porque não quer ouvi-lo, quer ouvir apenas a si mesmo e exercer sua catequese à vontade.

Isso me preocupa, primeiro porque fere a própria natureza do fenômeno lingüístico, segundo porque esse tipo de imposição, de monólogo inquestionável, pertence ao âmbito dos regimes totalitários, onde se exige submissão e falta de questionamento.

É irritante perceber, mesmo na mais trivial das conversas, que o outro nos corta a palavra no meio, nos interrompe abruptamente, de forma eufórica, para verbalizar seus dogmas, como se nem estivéssemos presentes, como se fôssemos ninguém. De fato, para ele não somos nada, pois a presença de um segundo ou de um terceiro é desconsiderada por completo, tal como aqueles ditadores que atiram para longe os corpos decepados como se fossem despojos inúteis porque já não servem mais aos seus propósitos.

A linguagem deveria ser uma forma de enriquecimento cultural entre os falantes, onde ambos pudessem desfrutar dialeticamente dos conteúdos disponíveis para um crescimento da comunidade como um todo. Dessa forma, o dissenso deveria ser não apenas aceito mas estimulado, pois é através dele que se chega a uma possível epistéme. Os diálogos platônicos são exemplos vivos do que estou dizendo, pois neles há não só dois, mas vários sujeitos participando livremente do diálogo onde o dissenso é pré-requisito para se chegar à elucidação do problema proposto. Sócrates jamais impede que o outro fale, pelo contrário, incita-o a isso, e a partir daí dá início ao esclarecimento do assunto. Ou seja, é só através do outro que se pode chegar à luz sobre as coisas.

Isto está no cerne da crítica de Foucault (A Ordem do Discurso e outros), Nietzsche, Bacon, Wittgenstein, Bakhtin, Jakobson, etc.

Diante desse discurso autoritário que reina por aí eu me reservo o direito ao silêncio, mas não o silêncio omisso e covarde, mas o que traduz indiferença, além da recusa de me ver submetido ao domínio tirânico de um monólogo castrador. Dessa forma rompo com a relação dominador-dominado, imponho minha liberdade e dou ao outro a ilusão de que está falando, quando no fundo está sendo calado.








                                                    Vagner Rossi





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