Texto antigo, sempre atual : outsiders de todo o mundo, uni-vos!
A marginalização funciona como
uma salvaguarda diante de uma constituição social e familiar, reflexo da
primeira, degenerada. Sair fora dos trilhos, derrapar, ser peregrino, inventor
do seu próprio caminho, é a cura para a homogeneização anuladora que nos ameaça.
É preciso dar o grito e o salto para fora, caso contrário é-se arregimentado
ilicitamente por uma ordem padronizada que obedece diretamente à orquestração
de ordem fraudulenta dos setores coercitivos, dos aparelhos do Estado. Mesmo no
seio da família, reprodutora dos modelos tradicionais desse Estado, protocélula
dele, é necessário manter autonomia nas relações com os próximos, pois ela
reproduz, além dos modelos morais e conservadores, padrões coercitivos,
autoritários que servem diretamente à política oficial. O caminho melhor seria
fugir, viver à margem, ir buscar a própria liberdade no âmbito da rua, se não
for possível encontrar espaços alternativos, ainda que isso traga como
conseqüência a brutalização e desumanização do indivíduo e destitua o sujeito
dessa categoria (sujeito). No entanto, isso também seria sua libertação: não
ter sequer registro, não ser enquadrado nos perfis de inclusão social, ser um
completo pária, sem sequer um nome. Porém, tal procedimento se traduz em risco,
pois a sociedade sempre irá perseguir os que se libertaram de suas amarras,
eles representarão um risco, na medida em que podem instigar outros a que se
libertem também.
Ser livre, absolutamente livre, é
ser só, incompreendido, estigmatizado, anatematizado, mesmo por aqueles que se
apresentam como mentalidades abertas, flexíveis, pois eles também, de uma ou
outra forma, estão dentro da prisão social e, como disse, os que estão na cela
não suportam a visão dos que estão livres.
“A civilização cuja perda deplora
reduz-se, para a maioria dos homens, a uma domesticação que os transforma em
máquinas.” - Karl Marx
Todo tecido social, desde suas
camadas mais sutis às mais elevadas, serve ao propósito do comando de uns sobre
os outros e à domesticação inquestionável. Há todo um aparato voltado a esse
mister: a igreja, as instituições de ensino, a família, a mídia e muitos
outros. Somos uma sociedade-prisão onde a ação heterogênea é rigorosamente
vigiada e reprimida em sua raiz. Há uma uniformização em todos os níveis com o objetivo
claro de transformar as diferenças em massas padronizadas e submetidas ao jogo
de interesses estatais. Na escola exige-se que todos usem “uniforme”, uma única
forma. Na dinâmica do ato social há todo um espelhamento que reflete igualdade.
Isso pode ser constatado através da aparência, pois quem se desvia do vestuário
linear é ridicularizado pelos que estão dentro dos trâmites “normais”.
O modo de vida da classe
trabalhadora é absolutamente anulador, nadificante. Tal como na fé todas as
injustiças são aceitas pela promessa redentora na figura de Cristo, no modo
trabalho o sujeito aceita passivamente sua condição degradante em troca de um
salário, acreditando que ele lhe livrará dos condicionamentos. Acontece que
esse salário é a sua própria prisão. A rotina dos trabalhadores é de intensa
atividade permeada por brevíssimos intervalos e mirada na perspectiva de uma
noite livre, ou de um dia livre, ou de um final de semana livre, ou de umas
férias, pois o prazer não está no trabalho e sim fora dele. Mas estes momentos
“livres” não são a liberdade, são ilusões de liberdade, porque, passados esses
períodos, logo todos devem regressar à prisão, ao seu modus operandi, que se
resume a transformar sujeitos em funções mecânicas, fazendo com que eles caiam
no automatismo psícofísico, tolhendo sua força racional, especulativa, roubando
suas horas, impedindo que eles possam se dedicar às atividades culturais
ligadas ao espírito. Assim, trabalhando, não lhes sobra tempo para pensar,
conseqüentemente não lhes sobra tempo para agir, pois, se eles não têm
consciência de sua miséria, como sairão dela?
Fala Proudhon:
“A comunidade é opressão, é
servidão. O homem quer na verdade se submeter à lei do dever, servir sua
pátria, obsequiar seus amigos.”
Mais:
“A comunidade viola a autonomia
da consciência.”
Há instâncias de poder, internas
e externas. Há subdivisões desse poder na malha social. O superego é o órgão
que reprime nossos instintos incompatíveis com a socialização. Ele é o pai
moral interno, o repressor que mora no homem, ele é o Deus que habita na nossa
consciência, impedindo que ela se realize. O argumento dos psicólogos é que é
necessária essa repressão superegóica, ou o homem se animalizaria. Acontece que
o superego é constituído pela moral dominante das classes dominantes que
sedimentam as mentes com conceitos autoritários de permitido e negativo, de
certo e errado. São as classes dominantes que introjetam no sujeito toda uma
estrutura moralista e repressiva para fins de comando e sujeição ( “Os pensamentos
da classe dominante são também, em todas as épocas, os pensamentos
dominantes” - Karl Marx) . Fora do aparelho psíquico há a figura do
pai familiar, reflexo direto do pai político, filhos do pai religioso. É-se
doutrinado a primeiro obedecer ao Chefe Supremo, Deus, depois ao chefe da
família e, por fim, ao chefe do Estado. Sem falar no chefe do setor
trabalhista. Chama-se Deus de Pai, é bom que se note. Ao longo da história
cobriram-se de tabu esses pais para que eles permaneçam no controle. Quem
desrespeita o pai chefe da família é execrado, ainda que esse pai seja a figura
da mais absurda tirania. Quem desrespeita o pai político é expatriado. Quem
desrespeita o chefe é demitido. Quem
desrespeita Deus, detentor de todo um código de valores verticais, é demonizado.
Dentro desse quadro de poder há ainda vários outros tipos de poderes, como o
poder midiático, que impõe visões deformantes de mundo e enquadra sujeitos em
gostos questionáveis. Há o poder da imprensa, verdadeiro estado paralelo. Ou
seja, há uma rede de poderes que visa ao controle, à alienação e à exploração
de todos. E há o pior tipo de poder, efeito direto de todos os outros: a
alienação no sentido de se acreditar que se é livre, pois assim eterniza-se a
prisão.
Há formas tecnológicas contemporâneas
de poder: as câmaras de segurança que se espalharam pelo mundo, diretamente
conectadas ao aparelho coercitivo policial, verdadeiras forças a serviço da
manutenção de uma situação ditatorial. Seria óbvio demais examinar esse quadro
sob uma perspectiva foucaultiana ou orwelliana.
As amarras institucionais da
sociedade impedem a criatividade, a inovação e o incremento de uma razão
reflexiva, e os motivos são demasiado óbvios: tudo isso pode deflagrar a
transformação na práxis social, pois o novo significa alteração nos quadros de
comando e a atitude revolucionária nasce da reflexão, da consciência
revolucionária. Portanto, há todo um esquadrinhamento tático de forma a sufocar
um fiat lux que seja.
Marcuse tinha razão ao dizer que
a inclusão do proletariado ao mercado de consumo dá-lhe uma ilusão de
liberdade, quando no fundo escraviza-o ainda mais, minando suas fontes de
economia e fazendo-o crer que, ao poder comprar o mesmo produto do seu patrão,
está no mesmo nível que ele e que, portanto, acabaram-se as disparidades
sócio-econômicas, o que lhe anestesia o ímpeto revolucionário por mudanças no
quadro social. Por mais que o filho do trabalhador consiga comprar o mesmo
brinquedo que o do filho do seu patrão, por mais que minha empregada voe agora
no mesmo avião em que eu vôo, isso não altera em nada o fato de que o
trabalhador permanece trabalhador e, portanto, submetido às contradições dentro
da sociedade, a empregada continua empregada e o salário continua um emblema de
exploração justificada - juridicamente, inclusive.
“O homem nasce livre, e por toda
a parte encontra-se a ferros.” - Rousseau
O poder estatal utiliza-se de
suas subdivisões de comando social, seus micropoderes, tais como a religião, a
ciência, a escola e outros, como disse antes. Todo o funcionamento da sociedade
é moldado a um enquadramento inquestionável. Hoje, em pleno século XXI,
assistimos a um fenômeno perigoso que é a substituição do arcabouço ético pela
repressão policial pura e simples (“A força não produz nenhum direito.” - Rousseau).
Complexos contemporâneos como o bulling e o processualismo vulgar que consiste
em detenção por racismo daquele que simplesmente, de maneira descompromissada
com qualquer forma de segregação, chama de negro o seu companheiro dessa cor,
sem contar a excessiva afetação homossexual, que recorre à polícia diante de um
olhar de reprovação das suas preferências por parte da comunidade
heterossexual, além de outros casos análogos, são exemplos de como a vigilância
está na base de tudo e de como a sociedade se transformou num panóptico
altamente moralista que usa de seu aparato legal completamente anacrônico e
falho para manter todos em subserviência. E o paradoxo é que tudo isso sob o
tremular das bandeiras do mais imoderado liberalismo, pois o libelo dos homossexuais
vem à baila sob o discurso da sua liberação e da quebra de tabus referentes ao
sexo, de um veemente apelo para que haja maior inovação nos costumes e maior
“liberdade”. Já o bulling expressa, em sua práxis, o incômodo diante do
diferente, do que foge a padrões preestabelecidos, a incapacidade de se lidar
com críticas. Assim, jamais vivemos em um mundo alardeadamente livre, mas que
funciona pelo mais disparatado controle.
Talvez, e esta é a minha fé, a
arte, a poesia, a filosofia atuem, como professadas desde priscas eras, como
elementos subversivos capazes de burlar todo esse status quo. Jogar, jogar de
forma lúdica, com a poesia, com o corpo, mas o corpo desbloqueado de seus
sintomáticos e somáticos engessamentos feitos a partir de verticais ações
autoritárias, o corpo livre, pois ele aglutina em si todo o poder exercido
sobre ele de cima pra baixo, cria uma couraça (Reich), uma camisa-de-força que
o impede se libertar e de viver suas legítimas pulsões, o corpo se insurge como
uma força capaz de abrir caminhos dentre a formação consuetudinária. O
exercício de certas lutas, sobretudo as de origem afro, como a capoeira, serve
a esse mister revolucionário. E a arte, o pensamento autônomo e crítico, os
movimentos lúdicos, tudo isso se apresenta como um front anárquico diante de
uma sociedade cada vez mais estúpida e moralista, ainda que em seus discursos
profira a palavra liberdade.
Já disse antes, em outro lugar,
que um dos jogos lúdicos mais eficaz para o desbloqueamento das imposições
autoritárias é o teatro, pois, em sua dinâmica de formação, ele libera o corpo,
ensina o estudante a se desbloquear por completo, a não temer a liberdade,
pois, como disse Erich Fromm, vivemos tanto tempo sob a égide da repressão que
passamos a ter medo de sermos livres.
Existem outras formas, como o
sexo, que o próprio Marcuse declara como único veículo capaz de promover a
emancipação da classe proletária. Segundo esse filósofo, guru da contracultura
e das mudanças de maio de 68, o prazer seria perigoso e temido pois daria à
classe trabalhadora, escravizada e explorada, a dimensão do quanto é infeliz.
Ao sentir prazer sexual, esse prazer estaria em flagrante contradição com sua
rotina de vida morta, empobrecida, o que lhes instigaria a se libertar. Assim,
eros passa a ser a palavra de toque, realização dos desejos como energia
canalizada para as grandes transformações históricas.
Quanto ao pensamento, pode-se
limitar um ser humano de várias formas, material, moralmente, ou de outras
maneiras, mas o pensamento escapa a qualquer tipo de opressão. Daí seu caráter
subversivo e o fato de ser ele combatido pelos sistemas geopolíticos. Hoje há
uma engenharia midiática feita para sufocar a atividade reflexiva. A maciça
programação dos mass media, pasteurizada, evidentemente, e feita com o intuito
de adormecer o poder pensante do consumidor, impede a razão de discernir. A
consciência se torna um subproduto tecnomidiático enlatado e esvaziado de
qualquer conteúdo. As músicas, os programas e filmes culturais são empurrados
para horários noturnos marginais, quando todos estão dormindo, onde, aí sim,
alguns bem acordados agem em silêncio. A publicidade promove um báquico efeito
no consumidor, levando-o a consumir os produtos-estandardes inferiores do
mercadão. Sendo assim, o homem encontra-se limitado em seus horizontes,
continua preso, e a frase de Rousseau nunca foi tão atual.
É bom que se diga que a ilusão de
liberdade é, como disse, a pior forma de prisão. A libertação verdadeira nasce
da consciência da prisão. Se alguém se julga livre, então pra que buscar a
liberdade?
Marginalizarmo-nos dentro desse
contexto torna-se, assim, a única forma de garantir-nos a integridade
psicofísica, nossa dignidade moral e espiritual.
“Seja marginal, seja herói.” -
Hélio Oiticica
O movimento antimanicomial, a
antipsiquiatria, a antipsicanálise e outras instâncias anárquicas são
movimentos que vêm enriquecer esse anseio por verdadeira liberdade.
Há que se buscar formas
alternativadas de sobreviver em um mundo paranóico e moribundo que naufraga
diariamente.
Em minha história de vida jamais
me enquadrei em nenhum tipo de feição estereotipada. Na escola sempre fui um
estranho, um atípico. Em casa sempre me isolei, não me constituí enquanto
sujeito que trabalha, namora, casa, tem filhos, se aposenta e morre, não segui
a receita do velho e insosso bolo. Pelo contrário, passei a minha vida me
dedicando às atividades ligadas às produções do espírito, à aquisição de
cultura, formando-me como homem de cabeça, não como homem de estômago e sistema
escretor, na inabalável convicção de que a vida não se resume a trabalhar,
comer e dormir. Seja em que lugar estive sempre fui uma presença incômoda, como
até hoje. É o preço que se paga por procurar ser autêntico, você passa a ser
visto como o errado, já que o sistema ensina a todos que eles estão certos,
mesmo vivendo em um meio desumano, degenerado e iníquo.
Nos meus relacionamentos a beleza
plástica, exteriorizada, nunca me atraiu por mais de uma noite, no máximo por
um rápido olhar, depois do qual minha visão percorria fundos em busca de algo a
mais. Sempre me seduziram violentamente formas femininas que fugiam aos padrões
estéticos vigentes. Sempre amei belezas raras, e a experiência me provou que
estas têm sempre um pote de ouro disponível àqueles que se dispuserem a
conquistá-las.
Durante muito tempo fui invadido
por um complexo de inferioridade que me fez acreditar que eu era o desajustado.
Já maduro olhei ao redor e sorri ao constatar que não era eu o exótico, apenas
estava cercado de pessoas conformadas.
Hoje não tenho dúvida de que a
sociedade não perdoa os que conseguem sobreviver fora de seus trilhos lineares
e condena os diferentes ao anátema, ao exílio, tudo para exercer sua
padronização e manter a ordem.
Por isso, acho que só os que dão
o salto para fora se libertam dos condicionantes elementos que permeiam o todo
social. Ser marginal, aqui, significa ser livre e original.
Termino prestando uma homenagem a
todos os autores que exerceram e exercem sobre mim uma influência absoluta.
Pessoas que, na vida como na arte, criaram, fizeram algo original e insólito,
foram perseguidos pelos do seu tempo, estigmatizados, mas legaram ao mundo suas
obras de peso incontestável. Eles são meus heróis. Meus heróis não são aqueles
que “vencem” na vida, segundo o modelo consuetudinário que se traduz em derrota
para mim, não são os que ganham dinheiro, os que exibem títulos honrosos, os
que agrupam em volta de si um rol de propriedades, os que são focados pela
sociedade midática porque respondem aos seus critérios enganosos. Meus heróis
são os que criaram e viveram até o osso, os que morreram de tanta vida, os que
uivaram à noite seus libelos, os que souberam amar o próprio amor além do bem e
do mal. Gente como Allen Ginsberg, Vincent Van Gogh, Nietzsche, Camus, Antonin
Artaud, Henry Miller, Rimbaud, Carl Solomon, Bukóvski, Lorca, André Breton e
tantos outros que não caberiam aqui. Essas pessoas me completam e me iluminam.
Essas pessoas são a contracultura, o anti-sistema, a resposta à uma civilização
que se encaminha diariamente para o seu colapso acreditando que conquista sua
emancipação. A elas o meu viva.
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