Um Trabalhinho de Faculdade
Sócrates perambulava pelas ruas de Atenas, por volta do século IV a.C., interpelando os cidadãos e exigindo-lhes que definissem os termos: ”Diz-me o que é o amor, a beleza, a verdade!”, era a sua abordagem. Seu método epistemológico consistia em ir contrapondo, a cada resposta dada, outra pergunta mais percuciente, até que seu interlocutor acabasse por perceber que não sabia nada do que julgava saber. Chegando à estaca zero, aí nascia o verdadeiro saber. Era preciso que o falso conhecimento fosse abandonado e que o cidadão reconhecesse sua completa ignorância. Lógico, pois quem se acha sabedor não procurará saber mais nada. Somente quem reconhece a enorme complexidade da existência que o rodeia e se percebe insignificante pode dar lugar ao surgimento de um conhecimento despido de falsas noções. Isso evidencia o caráter aberto do seu filosofar, sempre considerado um processo, uma construção para toda a vida, nunca algo fechado, dogmático, absoluto. Em Sócrates, a totalidade do saber jamais é almejada. O seu “sei que nada sei” é uma proposição relativa: eu sei em relação ao que não sabia, mas nada sei em relação ao muito que ainda tenho de aprender.
Sócrates era filho de uma parteira, Fenarete, e se dizia parteiro como a mãe. De fato, ele realizou belos partos filosóficos, que seu discípulo mais ilustre, Platão, registrou em seus diálogos para a posteridade.
A metodologia empregada por Sócrates é radical e revolucionária no âmbito filosófico, pois faz com que os conceitos sejam revistos, provocando o pasmo do interlocutor. Trata-se de um método desconstrutivista: primeiro, destruir a ilusão de que se sabe, depois, procurar e amar o saber.
“Sei que nada sei”, eis o assalto às convicções arraigadas! Com essa simples proposição Sócrates inaugura o pensar original.
Sócrates não se detinha em elucubrações de cunho metafísico. É visto por muitos como o precursor de pelo menos duas áreas das ciências humanas: a antropologia e a psicologia (o “Conhece-te a ti mesmo”). Como antropólogo, estava preocupado com o desenvolvimento moral e espiritual do homem na terra, denotando um espírito prático, bem ao contrário de Platão, que nutria uma visão metafísica do ser. Tal atitude antropológica é bem ilustrada em um dos diálogos platônicos. Nele Sócrates é retratado na prisão, aguardando o momento de beber veneno, rodeado de discípulos, quando um deles lhe pergunta se teme a morte, ao que ele responde, com altivez filosófica, que dava mais importância a um figo podre do que a ela e que temia muito mais cometer uma injustiça contra uma pessoa do que morrer, porque morrer não dependia dele (argumentou), aconteceria de qualquer jeito, mas cometer injustiça contra alguém, isso sim dependia inteiramente de sua vontade e deliberação. Logo a injustiça devia ser temida e evitada. Entretanto, o filósofo possuía concepções místicas que se aproximam muito, senão de uma religião, pelo menos de uma certa religiosidade. Por exemplo, ele acreditava que o corpo era fonte de todo erro, algo que impedia o acesso ao conhecimento verdadeiro, pois a realidade fora do indivíduo se deturpava ao ser apreendida pela mente, porque que mediada pelos sentidos, que só nos dão uma visão empobrecida do real, uma sua pálida projeção, o que seria investigado subsequentemente pela teoria do conhecimento moderna.. Além disso, o corpo era fonte de erro moral, pois aquele que se preocupasse excessivamente com o corpo ficaria restrito ao mundo material, se esquecendo de sua pátria celeste, divina. Para Sócrates, o corpo era sujeito à corrupção do tempo, era matéria finita, um subalterno da alma, esta sim imortal, imaculada, incorruptível, imperecível. A alma deveria transcender o corpo e regressar ao céu, de onde viera. Aí se vê que ele nutria uma visão esotérica sua, porém, na vida prática estava o cerne de sua abordagem, a correção moral, o âmbito ético, sempre por ele considerado.
Sócrates se mostrava em público de forma relaxada. Sua túnica era sempre a mesma, suja e rasgada. A tradição no-lo desenha como um sujeito feio, repugnantemente feio. Pode-se tirar daí pelo menos o caráter humilde e despojado de seu espírito. Ele não se preocupava com as coisas perecíveis, materiais, mas sim com o alimento da alma, com aquilo que não se deteriora com o passar do tempo. Ora, toda pessoa que se entregar à contemplação desinteressada do lado transcendente e sublime da vida ficará totalmente preenchida por uma sensação de plenitude que a fará desprezar as coisas daqui de baixo como algo sem valor.
Já no tempo do filósofo o consumismo comprava as alminhas mais pobres. Ele denuncia tal fato, apontando a vaidade das relações humanas, narcisistas e iludidas, exortando os cidadãos a se dedicarem mais à alma do que à carne. Em certo momento, ele suspira, como se sinalizasse com um atestado de liberdade em relação às mercadorias que o cercavam: “Tantas coisas das quais eu não necessito...”.
O cuidado excessivo com o corpo, bem ao gosto da cultura apolínea dos gregos, também não escapa dos ferrões do zangão Sócrates. Ele diz, como já observado, que o corpo está sujeito à corrupção e representa, no campo do entendimento, um obstáculo à busca da verdade, portanto deve ser evitado. O corpo é o cárcere da alma, que nele caiu (a queda), e agora ela, a alma, deve buscar transcendê-lo para regressar à sua verdadeira pátria: o mundo fulgurante das idéias eternas, o céu, o empíreo.
Agora vamos falar sobre o julgamento de Sócrates, sua condenação e morte.
A morte de Sócrates traz implicações políticas, e me assusta constatar que mesmo professores universitários gabaritados escamoteiam tal fato. Vamos analisá-la.
Na época de Sócrates (por volta do século VI a.C.), o sistema de governo era democrático, porém, tratava-se de uma democracia de fachada, pois quem mandava e desmandava era uma oligarquia conhecida por Grupo dos Trinta Tiranos, o povo mesmo não tinha nenhuma, ou quase nenhuma, participação nos processos do Estado. Os Trinta Tiranos gozavam de muitos privilégios através de uma arraigada corrupção nos meios e tinham fortes interesses em manter essa falsa democracia, pois se enriqueciam com ela. No plano social havia uma baderna generalizada, a impunidade reinava e todos faziam o que bem entendessem. É nesse contexto que surge o filósofo, e, à sua maneira dialética, começa a questionar o status quo, passando a representar então uma ameaça aos poderosos, que tramam um ardil contra ele. Sócrates falava demais. Era preciso calá-lo. Para isso, levantaram contra sua pessoa acusações levianas, falsas. À falta de outras mais consistentes, acabaram por acusarem-no de corrupção da juventude e impiedade (de ímpio, não crer, considerado crime contra as religiões da cidade).
Em tudo isso está a crítica à democracia como sistema de governo frágil e corrupto. Platão escreveria depois um livro inteiro contra a democracia, seu A República, que, entre a complexidade dos variados temas abordados pelo ilustre discípulo de Sócrates, que abrange psicologia, ética, direito, ciência política, estética, etc., nota-se sua profunda aversão pelo sistema democrático, pois fora ele que matara seu mestre. No fundo no fundo, o que Platão quer dizer, o que em si já carrega uma forte dose de polêmica, é que o povo não pode deliberar sobre política, pois não possui ciência, epistéme, saber, só doxa, opinião. O povo não entende nada de política, portanto não deve se intrometer em tal assunto. Somente aqueles que detêm o conhecimento podem governar com justiça e sabedoria. Quem são eles? Os reis-filósofos. O argumento de Platão se resume no seguinte: quando alguém está doente procura um médico, porque sabe que este se preparou, estudou muito e portanto está habilitado a fazer um bom diagnóstico e uma perfeita prescrição para o seu paciente. Assim deve ser com o governante, que deve possuir conhecimento aliado à virtude em seu governo. O povo não tem estudo, não entende nada de política, então não pode ser governante de nada, pois se o fizesse levaria o Estado à falência. No livro A República, Platão ilustra isso com a alegoria do navio: um navio é competentemente comandado por um capitão, que possui ciência, sabe navegar. Um dia a tripulação se rebela e resolve tomar o leme, então o navio naufraga. Não é necessária explicação, é claro o que ele sugere: o capitão é o rei-filósofo, a tripulação, o povo e o navio é o Estado.
Voltando ao seu julgamento, os acusadores de Sócrates foram, respectivamente, Ânito, líder democrático que representava a classe dos comerciantes e era poderoso e influente, Meleto, sobre o qual pouco se sabe, a não ser que era um poeta, um retórico de seu tempo e Lícon, que teve pouca relevância na acusação.
Por que Sócrates foi acusado de corrupção da juventude? Porque ele vivia cercado de jovens. Ele não se preocupava com os mais velhos, pois para ele estes já estavam irreversivelmente corrompidos. Os mais jovens deviam ser guiados pelo caminho do bem e da justiça. Era a sua missão como filósofo. Os jovens, no entanto, começaram a questionar, à moda socrática, os costumes, as tradições, voltando-se contra seus pais, rindo, zombando deles, o que fez com que seus pais tomassem ódio pelo filósofo. De qualquer forma, ele se cercava de jovens, daí a acusação, bem infundada, como se pode depreender do que foi dito acima.
Quanto à impiedade, a Grécia desse período era politeísta, ou seja, acreditava em vários deuses. Sócrates era monoteísta, acreditava em um deus apenas. Isso, como já dito, era considerado crime de impiedade.
O monoteísmo possui antecedentes bem definidos. Já no filósofo grego pré-socrático Xenófanes vê-se essa tendência, pois ele ridicularizava os que acreditavam em muitos deuses e gritava “Só há um deus!”.
Daí para a acusação formal foi um passo e Sócrates se viu diante de seus juízes.
Quanto ao seu julgamento, há duas fontes: a Defesa de Sócrates, de Platão, e a Apologia de Sócrates, de Xenofonte. Esta última tem sido muito revista ultimamente e há quem a considere suspeita. A de Platão é mais confiável.
Platão nos descreve uma das páginas mais maravilhosas da história da humanidade. Um homem justo e bom sendo acusado de crimes que não cometeu e enfrentando, sozinho, um tribunal disposto a tirá-lo de circulação.
Na época, não havia a figura do advogado, tal como hoje conhecemos, mas havia os logógrafos, espécie de embriões do que modernamente são os operadores do direito. Eles redigiam discursos em defesa do acusado, e é claro que tal mister era remunerado. A pedido de sua esposa, Xantipa (Sócrates era casado com ela e tinha dois filhos, mas trazia mais infelicidade ao lar com sua filosofia do que pão, o que tornava o relacionamento entre eles conflituoso), um logógrafo é requisitado para a defesa do filósofo, mas este o dispensa e prefere ele mesmo se defender publicamente, o que é feito, e dá-se então um julgamento onde vemos Sócrates numa hábil retórica, num inflamado discurso, que faz com que os juízes se sintam inclinados a absolvê-lo. Mas Sócrates não os perdoa e desfere contra eles um sarcasmo, o que faz com que eles o condenem a beber veneno (cicuta).
Na sua Defesa, Sócrates filosofa sobre a morte. Ele diz que, das duas uma: ou não há nada após ela, extinguindo-se de vez a vida na sepultura, ou há uma outra existência num outro plano. Se não houver vida após a morte, ele argumenta, será ótimo poder descansar para sempre. Se houver, será ótimo também, pois poderá reencontrar antigos mestres e amigos para ter com eles num mundo mais luminoso e eterno.
Sócrates é encarcerado. Há diálogos platônicos (o Fédon, para citar um) que descrevem exatamente esse período. Rodeado de discípulos, Sócrates filosofa com serenidade. Conquista a simpatia do carcereiro, que se toma de amores por ele, lamentando sua situação. E, no momento de beber o veneno, o filósofo, num ato emblemático, ergue a taça e roga a ele: “Posso fazer uma oferenda a alguma divindade com esta beberagem?”, como se dissesse: “Permita-me que faça uma libação em honra ao deus!”[1], ao que o carcereiro argumenta que a dose era estritamente necessária, e então, resignado, o filósofo bebe o conteúdo amargo da taça, depois se deita, e, diante das lamúrias de seus discípulos, que o pranteiam, ainda tem forças para ralar-lhes, dizendo-lhes: “Mandei que saíssem as mulheres para que não houvesse choradeira e agora vocês, essa bando de marmanjos, ficam aí chorando feito carpideiras!”. Em seguida, sente seu corpo ficar adormecido, vai ficando frio, até expirar de vez.
A história reviu a morte de Sócrates e concluiu que uma grande injustiça havia sido cometida contra um homem bom. Após sua morte o povo ateniense não perdoou, apedrejou o local do julgamento e seus acusadores foram condenados e executados. Mas Sócrates já havia partido...
Bem, terminada essa bela história, resta fazer pelo menos uma análise de extrema relevância: Sócrates representa o papel do intelectual diante das instituições políticas e religiosas e seus jogos de poder, e foi isso o que ele fez: desafiou os que detinham o poder e pagou com a vida por isso. Isso para não mencionar a questão da vaidade do povo ateniense, dotado de uma arrogância intelectual superior, que não gostou de ver desnudada sua ignorância em público por um homem feio e insignificante como ele. De qualquer forma, a figura de Sócrates se imortalizou como um homem sábio e justo e criou o estereótipo do asceta voltado para a ordem sacra e transcendente do mundo, despojado das coisas terrenas, discernindo entre o certo e o errado, preferindo o primeiro, amando a verdade acima de tudo;
Até aqui abordei o perfil tradicional de Sócrates. A partir de agora pretendo fazer uma abordagem crítica sobre ele, baseado em algumas poucas referências.
A escritora e crítica americana Emily Wilson, em seu texto famoso “O que há de Errado com Sócrates?”, discorda dessa visão positiva tecida em torno da pessoa humana do filósofo grego. Ela diz que, ao longo da história, Sócrates tem sido enxergado sob uma lente bastante favorável e que tem motivos para não aumentar o grau de tal ótica.
- No primeiro tópico, “Sócrates é um Amador”, ela diz que o filósofo não aceitava pagamento pelos seus ensinamentos, já evidenciando a célebre reação contra os sofistas, conhecidos professores ambulantes de filosofia duramente criticados por Sócrates e Platão por aceitarem pagamentos e por, segundo os dois filósofos, faltarem com a verdade. Então a autora argumenta que, se fosse levada a sério a pedagogia socrática e implantada na contemporaneidade, teríamos que fechar as escolas e universidades, o que acarretaria, como conseqüência, o retorno à idade das trevas, já que não haveria mais produção cultural acadêmica.
- No segundo tópico, “Sócrates é Irresponsável”, a autora diz que o filósofo negligencia sua família, permitindo que ela passe fome, enquanto ele confortavelmente filosofa na ágora, cercado de discípulos. É por insistência deles que ele leva alimentos para casa (quando isso ocorre), conduta essa que não condiz com alguém que prega um evangelho de moralidade.
- No terceiro tópico, “Sócrates é um Falastrão”, Emily acusa o filósofo de falar demais, o que talvez não seja o mais relevante, diante de outros aspectos mais importantes. Segundo ela, depois de ouvir do Oráculo que era o mais sábio de todos, o filósofo resolve testar essa afirmação e sai pela Atenas questionando aqueles que se julgavam sábios, até descobrir que eles realmente nada sabiam. A partir daí decide dedicar toda a sua vida à busca da verdade, mesmo que nunca a alcance. Ora (a autora argumenta), uma pessoa pode passar o resto da vida pintando belos vasos, sem saber o que é a beleza; um médico que faça bem aos seus pacientes pode viver uma boa vida, mesmo que não consiga dar uma explicação filosófica para o valor da saúde.
- No quarto tópico, “Sócrates é Psicologicamente Ingênuo”, Sócrates é acusado de ser inocente ao considerar que só se cometem erros por ignorância, desconhecendo que há impulsos inconscientes que podem nos levar a agir de maneira contrária às nossas vontades.
- No tópico quinto, “Sócrates Nega que a Dor Importa”, a autora diz que o filósofo não temia a morte, afirmação esta que sugere, na verdade, uma extrema insensibilidade de sua parte frente às dores humanas e até um egoísmo imenso, pois Sócrates se preocupava preponderantemente com seu mundo subjetivo em busca de conhecimento, enquanto o mundo exterior nada valia para ele.
- No sexto tópico, “Sócrates é Anti-político”, Emily Wilson argumenta que o filósofo defendia a idéia de que o político, para exercer o seu mister, teria que saber. O problema é que Sócrates era cético quanto ao saber humano, o que pode sugerir que a política seria algo impossível.
- No sétimo tópico, “Sócrates é Provinciano”, a autora afirma que o filósofo era bastante fechado a outras formas de compreensão do mundo, tais como a poesia, a psicologia, etc., nem aceitava que seu próprio grupo pudesse aprender com os outros através de um intercâmbio.
- No tópico oitavo, “Sócrates é Arrogante”, Emily Wilson acusa o filósofo de, por trás de todo o véu de beatitude filosófica, haver uma imensa arrogância de sua parte, pois ele não estava nem aí para as convenções sociais, se vestia de maneira desleixada, só se alimentava quando convidado, permanecia horas num esquisito transe, sem se preocupar se atrasava as pessoas que o aguardavam, e outras coisas mais.
- No nono tópico, “Sócrates é Supersticioso”, é apontada a maneira mística do filósofo se comportar. Ele dizia ouvir uma voz, seu famoso daimon, algo que resvala para o campo do sobrenatural, o qual o filósofo sempre rejeitou. Além disso, ele tem acesso direto ao seu deus, algo próprio de uma pessoa religiosa ou louca. Quanto ao seu daimon, Nietzsche afirmou, sarcasticamente, que não passava de uma infecção no ouvido.
- E, finalmente, no décimo e último tópico, “Sócrates é um Racionalista”, um Sócrates de caráter pétreo é apresentado pela autora, que cita um dos grandes estudiosos modernos sobre o filósofo, Gregory Vlastos, que afirma que Sócrates se desassemelha de Jesus pelo fato de este ter chorado por Jerusalém, enquanto que o filósofo jamais derramou uma gota de lágrima por Atenas. Trata-se, portanto, de um homem indiferente, que se traveste de uma rigidez racional quase ao ponto de transformá-lo em uma máquina de gestos autômatos.
Aqui termina a desmistificadora e iconoclasta crítica de Emily Wilson. Agora vou passar a outra crítica tão ou mais demolidora: a do filósofo alemão Nietzsche.
Nietzsche nutria uma profunda desconfiança pelo racionalismo socrático. Em Sócrates vemos a velha dicotomia corpo-alma, sendo que a última deve reger, com os implacáveis imperativos da razão, o corpo, com suas paixões e instintos, considerados pelo filósofo grego nocivos à formação do caráter do verdadeiro homem. Sócrates (acusa Nietzsche), dotado de um moralismo preconceituoso, acaba por se tornar inimigo da vida. Seu ideal iluminista o transforma num sujeito inflexível, como se fosse uma máquina de agir segundo ditames morais máximos. Ao amar profundamente um reino abstrato, imperecível e perfeito, acaba por repudiar o mundo real, então visto como reino de pecados e imperfeições. Com sua dialética, expressão maior de uma ordem apolínea, abole de vez com o reino do símbolo, da poesia, da arte, altamente dionisíacos (sem contar que, para Nietzsche, a dialética socrática não era instrumento de saber, mas sim de humilhação, com o qual Sócrates se vingava do seu oponente por este saber mais do que ele). Transforma-se, com isso, num inimigo da Grécia, num anti-grego, sufocando toda a rica cultura dos pré-socráticos e dos dramaturgos. Antes havia a poesia filosófica de Parmênides, Heráclito e outros, os dramas de Ésquilo, etc. agora há os diálogos, expressão de uma ordem racional caduca. Nietzsche tinha uma visão integral do ser humano, via-o como totalidade, enquanto o filósofo grego dividia-o em duas partes: uma perecível, corrupta (o corpo), e outra imaculada, eterna (a alma). Enquanto para Sócrates os instintos eram negativos e tinham que ser negados, Nietzsche achava que os instintos eram fontes de criação e tinham que ser desenvolvidos. O filósofo alemão alimentava uma filosofia telúrica, vivendo no e para o mundo, enquanto Sócrates visava o reino das essências eternas. Nietzsche considera Sócrates um pré-cristão, com toda a crítica implícita a isso. Nietzsche achava que a vida tinha que ser vivida de maneira corajosa, sem nenhum refúgio ideal, a despeito de sua poderosa destrutividade. Por fim, o filósofo alemão acusa Sócrates, meio à maneira de Emily Wilson, de esconder seus defeitos sob um véu de santidade.
A título de conclusão, resta dizer que, para além de todas as polêmicas que circulam em torno da pessoa de Sócrates, trata-se inegavelmente de um personagem de vulto histórico. Sua filosofia do não-saber é até hoje admirada e seguida; sua humildade (suspeita para alguns) gerou discípulos (como Antístenes) que trajavam roupas estudadamente desbotadas para se parecer com o mestre, a quem admiravam; seu despojamento ascético impregnou a Idade Média afora, abraçando a cristandade; e se suscitou e suscita ódios e desavenças, é porque suas idéias não estão desvinculadas da realidade, mas permanecem num fluxo atemporal, em ebulição nos meios acadêmicos, onde jovens estudantes, ávidos por saber, estudam-no e com ele aprendem que é melhor a incerteza como terreno fértil para a construção de um saber mais sólido do que a pretensão de instituir pretensas verdades. Afinal, isso é filosofia.
Vagner Rossi é graduando em filosofia pela Puc Minas
BIBILOGRAFIA BÁSICA E REFERÊNCIAS
NIETZSCHE. Friedrich. A Filosofia na Época Trágica dos Gregos. Para além do Bem e do Mal. Crepúsculo dos Ídolos. Genealogia da Moral. O Anticristo. Tradução e Notas de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Nova Cultural, 1996 (Os Pensadores)
OS PRÉ-SOCRÁTICOS. Fragmentos, Doxografia e Comentários. São Paulo: Nova Cultural, 1999 (Os Pensadores)
PLATÃO. Defesa de Sócrates. Tradução de Jaime Bruna. São Paulo: Nova Cultural, 1987 (Os Pensadores)
PLATÃO. A República. Tradução e Organização de J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2006
PLATÃO. Fédon. São Paulo: Nova Cultural (Os Pensadores)
XENOFONTE. Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates. Apologia de Sócrates. Tradução de Líbero Rangel de Andrade. São Paulo: Nova Cultural, 1987 (Os Pensadores)
XENÓFANES. Fragmentos. Tradução de Daniel Rossi Nunes Lopes. São Paulo: Editora Olavobrás, USP, 2003
WILSON, Emily. O Que Há de Errado com Sócrates. Extraído da Internet. Fonte: Google
[1] Sempre que leio esse trecho do Fédon, imagino Sócrates vertendo um pouco de veneno no chão, à guisa de saudação, como modernamente fazemos, quando derramamos de propósito um pouco de bebida e dizemos que é “para o santo”.
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