Um Ensaio Esotérico

O pensamento não é algo que se apaga no vazio. Poderíamos dizer, com Mallarmé, que “todo pensamento emite um lance de dados”. Ao pensarmos, nossos pensamentos se tornam centros de força, agrupam-se e criam a realidade, formam-na. Tudo depende, então, do modo como pensamos: se alimentamos pensamentos de carga positiva, elevada, a energia irradiada se plasma no mundo concreto, gerando coisas boas, mas o contrário também é verdadeiro.

Os budistas, os místicos, os ocultistas, os adeptos da Cabala, os teósofos de todo o mundo conhecem esse segredo, que foi banalizado e comercializado em nosso tempo através do livro seguido do filme O Segredo.

O livro budista canônico Dhammapada (O Caminho da verdade) - uma compilação da doutrina exposta por Sidarta Gautama, o Buda, aos seus discípulos -, logo no primeiro parágrafo do primeiro capítulo, afirma:

“Todas as coisas são precedidas pela mente, guiadas pela mente e criadas pela mente. Tudo o que somos hoje é resultado do que temos pensado. O que pensamos hoje é o que seremos amanhã”

Logo, é necessário que eliminemos da mente qualquer energia negativa.

Outra metáfora recorrente nos textos zen-budistas é a da mente-espelho. Segundo essa metáfora, a mente é um espelho. Se ela se cobre de pó (os apegos, as energias ruins), ela se torna grosseira e turva, deixando de receber e refletir a luz. Mas se limpamos o espelho, então a luz entra e se irradia.

Um grande nome do ocultismo C.W. Leadbeater, em parceria com a grande teósofa Annie Besant, em seu livro Formas de Pensamento, mostra imagens de pensamentos feitas a partir de métodos próprios, de como eles reagem a estímulos positivos e negativos.

Um cientista (não me lembro se japonês ou chinês) fez uma pesquisa no leito de um rio. Ele primeiro se debruçou em sua margem e proferiu palavrões às águas, fotografando-as. Depois, fez o contrário. Uma hora ele colocou música clássica, outra hora, um metal. O resultado foi que, quando estimulada positivamente, as moléculas de água se abriram, ficaram lindas, exuberantes, do contrário, se fecharam, tornaram-se cinzentas, feias.

                                                                                 
                                                                                            
                                         


  Moléculas de água negativa e positiva respectivamente

Há relatos longínquos de monges budistas que, a exemplo do filme Scanners - sua Mente pode Destruir, travaram uma guerra mental da qual um sucumbiu ferido mortalmente, sem armas, sem nada, a não ser o poder da mente.

O pensamento governa o mundo. Todas as produções concretas, em um estágio anterior, foram produtos mentais e em seguida se concretizaram pela ação do homem. Um edifício, por maior que seja, antes de se tornar uma gigantesca armação de concreto foi um ideal.


Eu sou o que penso. “Penso, logo existo”, diz Descartes. “Pensar e ser é a mesma coisa”, diz Parmênides. Heidegger diz que pensar não é tarefa da qual se sai impunemente. Pensar é coisa perigosa.

Hoje em dia há um sufocamento da atividade pensante, uma banalização do ofício intelectual. As pessoas não se importam com o que vêem, ouvem e lêem. Ficam satisfeitas em se refestelar no que Ezra Pound chamou, se referindo à má literatura, de pasto mental. Ruminam qualquer coisa. São reféns de uma mídia arquitetada para sabotar as mentes alheias. Basta ver a pasteurização do que é programado hoje nas rádios e nas tevês. Não percebem que invasores invisíveis estão penetrando seu recanto mais sagrado, seu relicário mais elevado, e roubando sua capacidade de discernir. Assim elas se transformam no que aqueles que dominam querem, são comandadas por eles. Nem preciso me aprofundar em refinadas teses adornianas sobre o assunto, é um fato evidente, basta ver como as pessoas comuns, sem instrução, vão emparedando sua capacidade de pensar, vão se tornando imbecis, grosseiras, alheias a tudo. Assim, não reagirão a nenhuma articulação política, serão dóceis rebanhos nas mãos de um Estado que as governa através do controle remoto.

Os ocultistas possuem uma teoria que remonta à Índia antiga. Segundo eles, há sete camadas, ou estágios, ou níveis no homem. Sete é um número cabalístico por si. Os adeptos do ocultismo, tal como se encontra em Blavatsky, deram o nome a isso de Constituição Septenária. Eles identificaram sete componentes no homem, que são:


1 – Veícullo Etérico-físico (Stula Sharira)

Trata-se de nosso corpo físico e mais a força que mantém unidas nossas células segundo uma forma determinada.

2 – Veículo Energético ou vital (Prana Sharira)

É a energia que percorre todo o corpo vivo e o diferencia basicamente de um corpo morto.

3 – Veículo Emocional (Linga Sharira)

Inclui todas as emoções humanas, desde as mais grosseiras e violentas até os estados sublimes de exaltação estética e mística.

4 – Mente Concreta ou egoísta (Kama Manas)

“Mente de desejos”, é a mente egoísta, especulativa e calculista, que trabalha exclusivamente para o Eu inferior.

5 – Mente Pura (Manas)

É o oposto da outra, ou seja, a que se põe a serviço da humanidade, desprezando os impulsos egoístas.

6 – Veículo Intuicional (Budhi)

Através desse veículo captam-se as verdades de forma direta e espontânea. Trata-se de uma união direta com a verdade, sem pensamento especulativo.

7 – Espírito ou Vontade Pura (Atma)

É a sede de sua vontade superior, a chispa divina que lhe familiariza com sua origem celeste.

(Fonte – Nova Acrópole Brasil)


Do que foi exposto pode-se depreender que podemos optar por vegetar nas camadas mais terrenas, limitadas, fonte de erros e de ilusões, ou podemos elevar nossa mente e atingir seu patamar, fonte de iluminação e de conhecimento superior. Cabe a nós mesmos a escolha, ninguém deve decidir por nós.

Se pensamos de maneira elevada, então geramos energia positiva, nos afinamos com um nível mental mais refinado e colhemos somente os frutos doces desse exercício, e vice-versa.

É como o elevador de um enorme edifício: tanto pode nos levar ao seu cume como ao seu piso inferior, depende do nosso comando, basta um toque de dedo, e pronto.

Aquele que alimenta formas mentais negativas se torna, com o tempo, fisicamente negativo, se enfeia, pois somos o reflexo do que pensamos. E mais, atrai para si, como um buraco negro, toda a sujeira do universo, fazendo com que tudo conspire contra si, gerando doenças e tragédias. Os místicos do mundo inteiro sabem disso.

A  alma é o delicado relicário que trazemos em nosso arcabouço lodoso e espesso a que chamamos de corpo. Devemos limpá-la, protegê-la, cultivando bons fluidos. Assim criamos escudos invisíveis que nos protegem dos maus fluidos alheios.

O filósofo Plotino (205-270 a.C.) compara a alma a uma jóia coberta por lodo. Diz ele:

“Imaginemos uma Alma feia, dissoluta e injusta, cheia de todas as concupiscências e desequilíbrios interiores, que por ser covarde está sempre com medo e por ser mesquinha está sempre com inveja. Uma Alma que só pensa nas coisas perecíveis e baixas, é sempre perversa, deleita-se com os prazeres impuros, vive a vida das paixões corporais e tem prazer com sua própria feiúra. Só podemos dizer que essa feipura veio até ela como um mal adquirido, que a  suja, que a torna impura, a impregna com grandes males e, com isso, sua vida e suas sensações perdem sua pureza, de modo que ela leva uma vida obscurecida pela mistura com o mal, uma vida mesclada de morte. Esta Alma não mais vê o que uma Alma deve ver, não mais lhe é permitido permanecer em si mesma, pois ela é incessantemente atraída para a região inferior, obscura. Impura, arrastada para todos os lados pelas atrações dos objetos sensíveis, muito infectada pela natureza corporal, absorvendo muita matéria e acolhendo uma forma (eidos) diferente da sua, ela troca a sua Forma essencial por uma natureza que lhe é estranha. É como um homem que mergulha no lodo: sua beleza deixa de ser visível, pois só o lodo passa a ser visível (...) Para a Alma, a feiúra é deixar de ser limpa e sem mistura, do mesmo modo que para o ouro é estar cheio de terra. Se a terra é retirada, permanece apenas o ouro” – Plotino, Enéadas.

                                                              


E mais: Plotino diz que é o pensamento que ilumina a forma, sem o qual ela não passa de um monte de carne:

“Assim, a beleza das coisas materiais provém de sua comunhão com um pensamento (razão, logos) que provén dos deuses” – Enéadas.

Para o filósofo, a alma está misturada com a substância perecível, o que lhe turva o entendimento, gerando erros morais graves, identificando-a com o barro. É preciso transcender o corpo, se despojar das coisas daqui do mundo manifestado e alçar a alma a grandes alturas, identificando-a com os “deuses”. Uma alma ligada ao mundo passageiro, identificada com seus apegos, egoísta, abjeta, não pode levar uma vida sadia e justa, pois para ela não haverá limites, ela sempre tentará satisfazer seus desejos imperativos, já que estará sob o domínio do seu elemento concupiscente, seu Kama Manas. Não haverá ética para ela, pois o prazer dos sentidos a aprisionará aos objetos concretos, tornando-a presa ao mundo sensível, e ela sempre enfrentará quem se interpuser em seu caminho.

Buda tem, como primeiro princípio de suas Quatro Nobre Verdades, a afirmação de que viver é dor, o que significa que para o ser sensiente só pode haver sofrimento e erro. Ele receita então o desapego como expurgo espiritual e moral. E mais, diz que quando queremos uma coisa acabamos por nos prendermos a ela através de vínculos espúrios. É quando abdicamos que tudo vem a nós e nos libertamos.

À medida em que promovemos essa elevação dos níveis de consciência vamos atingindo graus de clarividência jamais imaginados. Isso é possível porque, ao refinarmos a alma, expurgando-a da ação nociva dos sentidos, ela transcende sua condição corporal, passando a ver acima da carne, entrando em contato com planos mais sutis. Assim é que o poeta William Blake afirma:

“Se as portas da percepção fossem limpas tudo apareceria ao homem como é: infinito. Pois o homem confinou a si mesmo, até que consiga ver todas as coisas através da estreita fenda de sua caverna” – William Blake, O Casamento do Céu e do Inferno.

Ou seja, nossas percepções encontram-se tapadas pela ação das coisas sensíveis. Purifiquemo-nas e veremos o invisível, o “lado oculto das coisas”, a que se refere Leadbeater.

Outra coisa não diz o poeta brasileiro Cruz e Souza:

“O artista que sente claro entende claro, pensa claro, saboreia claro” – Cruz e Souza, Missal e Broquéis.

Platão também diz, em sua República:

“Quando os olhos do corpo se fecham, os da alma se abrem” – Platão, A República.

E ainda:

 “A alma é como o olho; quando fixa sua atenção sobre um objeto iluminado pela verdade e pelo ser, a alma percebe, compreende e demonstra possuir inteligência; mas quando se volta para a penumbra do transformar-se e do perecer, como não pode ver bem, não faz mais que conceber opiniões, ora esta, ora aquela, e parece não possuir inteligência alguma” – A República

Todos temos dois princípios contrários dentro de nós, todos temos ying e yang, luz e trevas. Cabe-nos, porém, fazer com que o melhor de nós governe, submetendo o lado ruim. Ninguém gosta de ser escravo, muito menos escravo de alguma coisa negativa. Acontece que a maioria se encontra submetida somente ao lado negativo, sem almejar se libertar. Para se libertar basta dar o primeiro passo. Você é quem deve comandar.

Platão faz uma interessante analogia em A República. Seguindo essa teoria exposta acima, de que o melhor deve governar, chegou à conclusão de que é a alma que deve governar o corpo, pois ela é de substância celeste, imperecível, enquanto que o corpo é finito e mortal, a razão deve governar as paixões, os vícios, e, no plano político, é o filósofo virtuoso que deve governar a massa dissoluta:

“Na alma do mesmo homem existe algo que é melhor e algo que é pior, e quando o que por natureza é melhor domina o pior, diz-se que o homem é “senhor de si mesmo”, o que constitui um encômio, mas quando, por educação defeituosa ou em resultado de más companhias, o melhor leva desvantagem e é sobrepujado pela força numérica do pior, isto se censura como opróbrio e diz-se do homem em tais condições que é escravo de si mesmo e um intemperante” –  A República.

Dessa proposição chegou Platão a uma aristocracia. O rei-filósofo, ou seja, o que detém a virtude e a inteligência, caracterizada como conhecimento superior (epistéme), em contraposição à opinião comum (doxa), este deve comandar. O governo deve ser o Estado do melhor. Quanto à formação desse rei-filósofo, Platão estabelece todo um receituário moral e físico ao qual o aspirante deve se submeter. O Estado é formado por indivíduos. Bons indivíduos = bom Estado, maus indivíduos = mau Estado, da mesma forma que, na alma, o lado bom gera um bom caráter e o lado mau um mau caráter.

Ora, quando Platão diz que o filósofo deve governar está dizendo, em outras palavras, que o pensamento é o fundante de toda civilização desenvolvida, sem o qual ela mergulhará na barbárie e no caos. É a importância do intelectual na formação de um país. Sócrates ilustra bem essa figura, pois teve de enfrentar a ira de um povo contra a ação fecunda e questionadora de seu filosofar, terminando por morrer. Foi o preço que pagou por sua inteligência. Tal oposição o intelectual ainda encontra nos dias atuais sob formas mais sutis, quando, por exemplo,  vê suas idéias rebaixadas, mediocrizadas, banalizadas, sendo totalmente desacreditadas. É comum ouvir das pessoas que filósofos são loucos, filosofia não serve para nada, todo intelectual é um inadaptado, e outras visões bastante genéricas. No cristianimo o pensamento sempre foi considerado atividade demoníaca, basta ver o mito adâmico e outras referências bíblicas onde a sabedoria do homem é loucura frente a onisciência de Deus. Há uma enorme vantagem em se manter tal posição, pois, como disse no início deste descompromissado ensaio, todo Estado autoritário necessita de ingênuos, de tolos, de corpos instrumentalizados e dóceis que sirvam aos seus fins. Por isso a programação insubsistente, por isso a falta de cultura, por isso a massificação geral a que todos são submetidos. São como produtos em série, descartáveis, num mercado fraudulento. Rebaixaram-se tanto que se assemelham a animais grunhindo por aí. Consumistas, não medem esforços para conseguir seus objetivos, para adquirir seus anseios materiais, passando por cima da ética. Perderam sua força cognitiva, identificando-se com o plano rasteiro. Sepultaram-se numa caverna intransponível. A luz para eles tornou-se trevas e as trevas, luz. Aprenderam a amar a podridão e a escuridão, aprenderam a amar a terra e a desprezar o céu. O real tornou-se, para eles, ilusão e a ilusão, o real. Estão no subsolo, lá no fundo, de onde não há esperança de que possam sair um dia.




                               


                       Vagner Rossi [1]














[1] Vagner Rossi é graduando em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

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