De uma metáfora (uma fenomenologia do lugar)

Me deparei com uma bonita metáfora, tirada das páginas de algum autor (provavelmente Marguerite Duras, se a minha débil memória não falha, e sempre falha): não somos nós que habitamos uma casa, mas ela quem nos habita. De fato, a casa é um espaço de percepção subjetiva, onde a memória afetiva fica impressa no sujeito de forma indelével. 

Poderia me deter aí e apelar para Bergson seguido de Proust, mas vou além e subrepticiamente, para sacanear com os autores de que gosto (assim lhes rendo uma homenagem - ou seria ménage? ), afirmo que uma casa é o âmago propício a intervenções - digo "intervenções", e não, como diria nosso amigo Bergson, "memória como duração interior" -, onde confluem passado, presente e futuro e se desfolham, ante nossa visão de centro, as páginas de toda uma vida, senão molhadas com lágrimas, ao menos sentidas com certa profundidade. Mas tais intervenções logo se secam recolhidas por uma ampla abordagem histórica que nos empurra avante. Nessa dialética do lugar não há tempo para expressões meramente criteriológicas, pois que mergulhamos inteiros no velho rio heraclitiano e dele saímos gotejando puro "agora" (talvez isto expresse a agoridade antes negada).

Ao percorrermos os corredores de um antigo casarão de Ouro Preto, quem não ouve os ecos de subterrâneos varados de súbita presença? Tal perspectiva fenomenológica nos soa, assim, como raiz e nos desqualifica no vôo escuro da viagem. Porém, rodopiamos na vertigem de um atravessamento todo ele respaldado por uma lógica crível: a de que não estamos, mas somos. E a casa nos habita.



                                                     Vagner  

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