O pensamento obedece a uma lógica interna, sua. Parte-se de um nada evasivo, difuso, e, como um cosmonauta em espaços ignotos, chega-se à luz de uma clara idéia apenas intuída. Acho que o modelo de raciocínio estruturado sobre a razão linear é pobre e jamais atinge as culminâncias do pensar, pelo contrário, lhe é até entrave, entulho conceitual. É quando desligamos nossa máquina geradora de conceitos, para ficar numa definição deleuziana, é que alcançamos o insight.

É Pessoa quem explode: “Canto de qualquer maneira, e acabo com um sentido.”

Eu sempre fui contrário a fórmulas e a sistematizações. Minha praia sempre foi o ensaio, o improviso, a liberdade de partir para novas perspectivas, novos horizontes, aventureiro do pensamento que o homem é, como bem o definiu Lawrence. Concisão também sempre me caiu bem. Desconfio dos que falam e escrevem muito. O essencial se diz numa frase.

Estou querendo dizer que o sujeito (no caso, eu) se posta diante de uma desafiadora página em branco (decifra-me, ou devoro-te!), e eis o desafio... Ele é obrigado a arrancar de suas entranhas um rico universo sígnico, uma gama inimaginável de idéias, não as mortas, cristalizadas, mas as vivas, abertas. Ele se lança então, sem bússola, ao oceano da intuição e regressa com as redes repletas de peixes-conteúdo, pescador do criativo que é, não repetidor de idéias fossilizadas.

Há que se ter sempre em mente que não há nada de novo sob o sol, é bom que se saiba. Mas isso não nos impede de procurarmos avançar em busca do original. É preciso saber gritar “não” diante do impossível e ultrapassá-lo, bem como na vida. Recriamos a nós e ao mundo o tempo todo. Não há fórmulas, há coragem e grandes atos transformadores.

Fecho com Mallarmé: “Todo pensamento emite um lance de dados.”

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