O antiplatônico Banquete de José Celso Martinez
Em Platão
há a energia sexual sublimada, num devotamento ascético às coisas
transcendentes. Para o filósofo grego, o amor é uma força
ascensional que desaferra as pessoas de sua condição material e as
alça ao Amor Puro. Platão distingue o amor humano e imperfeito,
eros terrestre, do verdadeiro amor, eros celeste. O primeiro está
fadado a perecer, pois sua natureza é corpórea. Já o segundo, por
ser de origem elevada e não estar identificado com a esfera mundana,
é imortal. Assim há em Platão toda uma prescrição de ordem moral
para expurgar o amor do seu contato com as coisas materiais,
imperfeitas e perecíveis.
José
Celso Martinez Corrêa cria um Banquete antiplatônico. Nele a ordem
que se instaura é a do total desregramento, do gozo desmedido, da
bacanal como dessublimação e liberação do orgasmo, energia
potente. Trata-se de um banquete enquadrado em uma percepção
dionisíaca absoluta.
Cena do
Banquete, versão de José Celso Martinez
José
Celso agrupa elementos afro-brasileiros nessa peça, procurando um
sincretismo que desconhece fronteiras.
As
frutas, assim como o vinho, são elementos simbólicos dentro dos
ritos de Dioniso, ambos dizem desejo e celebração da carne, livre
das amarras sociais.
José
Celso afirmou inúmeras vezes que não acredita nessa concepção
sublimada de amor incorpóreo platônico. Para o diretor teatral, o
amor está identificado com o gozo corporal. Para enriquecer tal
teoria ele incrementa o cenário, ricamente adornado com uvas,
vinhos, festivas seminus, numa verdadeira festa orgíaca
desregulatória.
Segundo
Carolina Araujo, professora adjunta do Departamento de Filosofia da
UFRJ: “O público é recebido pelo cortejo que celebra a vitória
de Agatão, alguns espectadores têm seus pés lavados e recebem
massagens dos atores. Ao entrar no teatro, parte da platéia é
convidada a ficar descalça, deitada em colchonetes próximos ao
corredor que serve de palco. Vinho é servido, ao longo de toda a
peça, aos espectadores que compram um tíquete. A ação, que parte
da proposta de Erixímaco de medida no vinho e elogios ao amor, se
desenrola na mesma ordem do texto platônico que, no entanto, é
totalmente reescrito, em livre adaptação em versos de Zé Celso.”
Ritual de
lava-pés no Banquete de José Celso
Assim
como em Sade, a proposta de Zé Celso é promover uma ruptura entre
os princípios morais vigentes, insurgir-se contra um código de
valores obsoleto que enxerga no amor queda e atitudes pecaminosas. Zé
Celso quer mostrar que o amor é libertação e beleza da nudez e do
orgasmo em sua plenitude mais nua e crua. Uma atitude de assepsia do
corpo, bem como da dimensão terrena, do mundo encarnado, significa
niilismo, negação da vida, covardia. E não seria ilícito me
referir a Bataille, para quem o máximo de liberdade é o ato do
orgasmo, semelhante à morte.
Os
excessos de Sade significam uma férvida oposição aos ideais
republicanos e à hipocrisia do seu tempo. Sua ferina crítica ao
cristianismo e sua ferrenha revolta contra as leis consuetudinárias,
sobretudo na questão do moralismo, o colocam lado a lado com outro
grande libertário: Nietzsche.
Uma das
ilustrações da Filosofia na Alcova, de Sade
José
Celso, com sua versão de O Banquete, insere-se, assim, na mesma
ordem revolucionária, choca os telespectadores acostumados à lógica
fácil e linear do teatro tradicional, provoca reações
preconceituosas em alguns, em outros faz desaparecer qualquer
resquício de preconceito. Tal como Sade e Nietzsche, Zé Celso
quebra os grilhões das convenções mais vetustas e nos instiga a
amar plenamente, a revivermos os ritos dionisíacos do sexo e da
fertilidade. Trata-se, sem dúvida, de um teatro insurrecto e
catártico, feito por corajosos para corajosos.
Vagner Rossi
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