Distingo um mau texto de um bom pelas referências que o autor deixa entrever. Ao ler um texto, se me saltam aos olhos os autores que o escritor leu, mesmo que da forma mais indireta, desqualifico o texto, que perde seu valor para mim. Na minha visão, literatura se torna realmente literatura quando ocorre um processo de total apagamento da memória literária do sujeito que escreve, quando ele se desliga das influências que pesam sobre ele no ato da escrita, quando na sua própria escrita sobram apenas ele mesmo e seu contexto.

O crítico e poeta norte-americano Ezra Pound deu algumas definições de literatura que estão na esfera da arte poética moderna e de vanguarda. Ele disse, por exemplo, que literatura é novidade que permanece novidade, significando isso que escrever é um eterno processo de recriação. Em outra parte, ele diz que literatura é linguagem carregada de significado. Ou seja, a linguagem tem de estar prenhe de todo um conteúdo semântico personalísimo, de modo a provocar no leitor associações psíquicas que o transportem a outro plano, livre de qualquer linearidade.

Parece-me que hoje em dia alguns poetas e escritores, que - é bom que se diga - beberam na fonte da teoria poundiana, se esqueceram disso. Criou-se uma república oficial cuja política é nociva à inovação, até porque se fecha a novos autores, sustentando uma plêiade questionável e viciada que domina os meios de comunicação. Surge assim uma cultura parasitária e egóica cuja intenção é publicar a si mesma e viver de sua própria e inesgotável vaidade.

Alguns poetas contemporâneos, eivados de maciças leituras de certos precursores com status de paradigma, não conseguem se furtar a repeti-los em suas obras, e o que se vê é o pastiche do pastiche, no sentido em que se cria um ciclo de referências que anula a verve arcaica desses poetas, sua condição original. Assim, há nas suas obras ecos de Leminski, Rimbaud, Maiakóvski e tantos outros, de tal forma que são esses autores que falam através dos textos dos poetas, não os poetas eles mesmos.

A poesia se tornou metalingüística, voltada para o seu próprio procedimento. Em alguns casos, fazer poesia é abusar do prosaico, escrever versos tão triviais que o leitor incauto sente-se tentado a buscar por detrás da forma algum conteúdo subjacente, mas em vão, pois tal não há. Em outros, juntam-se passagens pretensamente jocosas, espirituosas, versos pedantemente bilíngües, palavras sobrevoando o nada, arruma-se um título excêntrico, e nasce um poeta contemporâneo.

Desnecessário dizer que há sempre boas exceções. Há autores que promovem um estranhamento no leitor devido ao caráter inovador do que criam, que são designers além de poetas e tecem confluências entre projeto gráfico e poesia muito bem estruturadas. Falarei basicamente de dois deles adiante. Mas, infelizmente, a maciça maioria é feita de repetidores dos repetidores, cópias das cópias.

Umberto Eco, em um de seus livros, analisou o assunto, quebrou preconceitos em relação à difamada cultura de massas e criticou os artistas no que tange à sua repetibilidade eterna. De maneira sagaz, ele viu que os pressupostos de vanguarda inevitavelmente se transformam em repetição, o que anula seu caráter vanguardista:

“Em uma fórmula feliz, Clement Greenberg afirmou que, enquanto a vanguarda (entendida, no geral, como a arte na sua função de descoberta e invenção) imita o ato de imitar, o kitsch (entendido como cultura de massa) imita o efeito da imitação.” (Apocalípticos e Integrados)

Na medida em que o autor usa as fórmulas utilizadas pelos seus antecessores, fica invalidada qualquer possibilidade de inovação, que se transforma em repetição.

Aqui Eco critica a metalinguagem, exaustivamente utilizada pelos contemporâneos:

“Hoje em dia, as poéticas perece terem-se tornado mais importantes do que a obra, não sendo a obra outra coisa além de um discurso contínuo sobre sua própria poética e, melhor ainda, a poética de si mesma.”

Tornou-se enfadonho ler poesia, pois, ao ler uma gama diferente de autores, a impressão que se tem é que se leu um só, tamanha é a similaridade que há entre várias obras.

Não outra coisa diz ainda Umberto Eco:

“Na medida do êxito que alcança, uma obra de arte faz escola e gera uma escola de imitadores.”

O filósofo italiano acentua a contradição que há entre vanguarda e a repetição da mesma, na medida em que o que caracteriza toda vanguarda é justamente sua capacidade de subverter o campo perceptivo do leitor, levá-lo a percorrer novos âmbitos, mergulhá-lo em associações tais que o céu do maravilhoso se abre a ele, tudo, mesmo a palavra mais banal, adquire um sentido novo e é esse novo que permeia toda a obra, assombrando quem a lê.

Umberto Eco não perdoa a contradição entre vanguarda e imitação e define o que é poesia inovadora:

“A obra de arte propõe-se-nos como uma mensagem cuja decodificação implica uma aventura, precisamente porque nos atinge através de um modo de organizar os signos que o código consueto não previa.”

Ezra Pound disse: “Make it new”, faça o novo. Parece que seus seguidores ficaram cegos para esse postulado e passaram a enxergar somente a si mesmos.

O que precisa ser feito é uma redução similar a de Descartes até o ponto primevo onde só o autor, mais ninguém, ecoa.

É claro que todo texto está ligado a um seu referente, mas quando o referente toma o lugar da inovação não há literatura, pelo menos não no sentido poundiano.

Diz-nos Décio Pignatari:

“É certo que qualquer linguagem nova, inicialmente, estará ligada, num certo grau, a uma ou mais linguagens já existentes. Com o seu desenvolvimento, porém, irá gradativamente se tornando autônoma.” (Teoria da Poesia Concreta)

Em seguida afirma:

“Uma linguagem vale pelo que tem de intraduzível, de intransponível, de irredutível a outras linguagens.”

A leitura dos precursores é indispensável no sentido formativo, mas, após ter alcançado a maioridade literária, todo esse repertório deve ser substituído pelo próprio repertório do autor, agora emancipado.

Não é outra coisa que nos diz Augusto de Campos:

O que caracteriza a condição do poeta moderno não é tanto a objetividade exteriorizante ou a introspecção lírica mas a autonomia do discurso poético.”

É necessária uma redução fenomenológica nas artes, ou se chegará ao seu total esgotamento.

Tal faceta complexa não a deixou escapar Octavio Paz:

Se a imitação se torna simples repetição, o diálogo cessa e a tradição se petrifica; e do mesmo modo, se a modernidade não faz a crítica de si mesma, se não se postula como ruptura e só é uma prolongação do “moderno”, a tradição se imobiliza. Isso é o que sucede com grande parte da chamada “vanguarda”. A razão é clara: a ideia de modernidade começa a perder sua vitalidade. Perde-a porque já não é uma crítica e sim uma convenção aceita e codificada. Em lugar de ser uma heresia como no século passado e na primeira metade do nosso, converteu-se em um artigo de fé que todos compartem.” (Signos em Rotação)

Se, para Heidegger, evidencia-se o estatuto ontológico da obra poética, encarada como revelação da verdade identitária do ser livre da tutela do ente, a poesia deve ser encarada como ferramenta capaz de possibilitar plurisentidos inesgotáveis frente às calcificações, ao mecanicismo de nosso tempo, ao automatismo das funções coisificantes, permitindo-nos uma abertura ao pasmo fenomenológico do nosso existir. Só a arte pode nos possibilitar isso. Mas, quando ela se vicia e se acastela em escolas, em dogmas e em procedimentos questionáveis, morre o horizonte do novo e com ele toda possiblidade de reafirmação do ser diante de sua facticidade. A história se torna uma prisão, um mito sisifiano anulador e desprovido de beleza e justificação.

Make it new, façam o novo, sem que esse novo se torne mumificado, deixando de ser novo.

Poesia é sempre diferença e, por sê-lo, escapa à qualquer forma de engessamento e estereotipização, torna-se portadora de elementos deflagradores da mais perigosa sublevação, é incômoda, portanto, ao enquadramento sócio-político, que necessita do antigo para se manter.

Nomes como Carpinejar e Bruno Brum nos mostram que renovar é preciso e possível.

Este último, em seu mais recente livro Mastodontes na Sala de Espera, provoca um deslocamento do eu de dentro para fora, para os objetos triviais inseridos na moldura do mais banal cotidiano, fazendo com que esses objetos assumam uma identidade nova, aparecendo diante do leitor de forma inesperada. Isso renova nossa percepção do mundo:

Todos olham e enxergam o frango assado.
Todos os caminhos levam ao frango assado.
Tudo o que se vê, tudo o que se ouve,
o cheiro das ruas vem do frango assado.
O frango assado anda de um lado para o outro.
Está visivelmente confuso.” (Quem tem medo do frango assado?)

Assim, um mais que prosaico frango assado torna-se confuso diante de uma poética que desloca percepções já sedimentadas, desgastadas.

Aqui Bruno aponta para a necessidade de ir ao centro das coisas, de ver com novos olhos, com o “pasmo inicial” fenomenológico:

Olhos por perto.
Há coisas escondidas
atrás de outras coisas.
Logo adiante, mais delas.
Depois (dentro) delas, ainda outras.” (Postais I)

Olhar mais perto, ir para trás das formas, além da configuração mais óbvia, ir “dentro” das coisas (alethea), revelar o invisível.

Em Noventa e Nove Blefes os poemas de Bruno lembram Haicais revigorados:

Atravesso a rua. A rua me atravessa.”

Uma velha geladeira consola três garrafas.”

Roupas enforcadas no varal.”

Ao redor, roedores.”

Conforme imaginamos, não era nada do que imaginávamos.”

Comete-te a ti mesmo.”

Em Carpinejar vejam-se estes exemplos, tirados de seu primeiro livro As Solas do Sol:

Os astros enfermos
aguardavam em fila
um leito no firmamento.”

A noite urinava
nas paredes
do quarto.”

A vida amou a morte
mais do que havia
para morrer.”

Fugindo
das feições poluídas,
vacilei em polução noturna.”

São nomes no cenário contemporâneo que apontam para o desbravamento de novas aventuras da linguagem. Caberia citar aqui o veterano Affonso Ávila, a poesia sofisticada de Andytias Soares de Moura, a poesia epifânica do português Herberto Helder e muitos outros.

Disse Maiakóvski:

Na obra poética, a novidade é obrigatória.”

Novamente o poeta russo:

O ritmo é a força básica, a energia básica do verso.”

E aqui:

O poeta deve desenvolver em si justamente este sentimento de ritmo e não decorar as medidazinhas alheias.”

Deve-se esperar, portanto, que a poesia assuma sua função primordial, inovar, sem a qual deixa de ser poesia e passa a ser realidade. Esta necessita urgentemente ser reiventada. Só os poetas, quando são poetas, sabem e podem fazê-lo.




























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