Funk Melódico - Caetano Veloso
Caetano Veloso foi profundamente feliz em sua inteligente e fodástica canção “a bossa nova é foda”, ao afirmar que, na atualidade, trocou-se o mito triste da raça ariana culpada e submissa pelo dos guerreiros épicos, imbatíveis, Anderson silva, Junior Cigano, Vitor Belfort, etc. Se antes tínhamos uma civilização marcada pela culpa sem remissão e pela angústia, pela total aquiescência dos valores morais, ascéticos, religiosos, massa de servos, de rebanho, agora temos o espetáculo da luta, os heróis que se lançam sem medo ao confronto. Estivesse Nietzsche vivo e ele saudaria Caetano. Trata-se da afirmação da vida diante das forças que a ameaçam, a luta, a guerra, os que combatem, em vez de oferecer a outra face. Todos sabem, a luta foi exaltada por Heráclito, que afirmou ser a discórdia o motor da história, e, muito tempo depois, por Darwin, com sua seleção natural, embora Darwin nunca tenha dito que os mais fortes sobrevivem, como costuma se afirmar, mas sim que os mais adaptados, o que vem a dar quase no mesmo, pois a adaptação exige força e luta para tanto. Nietzsche amava Heráclito e era discípulo de Darwin e saudava os processos revolucionários, sangrentos ou não. A luta não é apenas expressão de certa ancestralidade que necessita ser catartizada, tampouco simples emblema de uma virilidade típica de uma cultura machista. A luta é a saudação dos ideais revolucionários, é uma virtude hercúlea, é a positiva afirmação da vida, mesmo diante da possibilidade da derrota, e me remeto aqui às grandes guerras gregas da Ilíada e outras cantadas pelas tragédias helênicas. Caetano foi muito feliz em seu novo disco, Abraçaço. Nele ele canta “A bossa nova é foda” e reúne no mesmo balaio João Gilberto e Anderson Silva Spyder. Para provocar, no momento em que boa parte da crítica ilustrada e da opinião pública tecem pesadas reprimendas ao funk, o músico baiano lança seu “funk melódico”. Claro que o funk de Caetano está longe da pobreza vocabular dos tradicionais cariocas, nem poderia ser diferente. Em um trecho genial ele diz: “Você produz raiva, confusão, tristeza e dor. Prova que o ciúme é só o estrume do amor”. O mesmo Caetano já cantara o ciúme em uma outra belíssima canção, mas agora ele o canta num estilo funkeado. Há uma homenagem a Carlos Mariguella em “o comunista”. Em relação ao funk, devo dizer que sempre esteve longe de ser meu estilo musical, mas não posso negar que há nele algo de ritual dessacralizante, de celebração do gozo orgíaco, libertário, de ludicidade corporal, de supervalorização do gozo sobre as interdições puritanas, dos joguinhos sensuais modelados na pista pelos corpos suados, e isso, independentemente do estilo, me agrada. Há no novo disco de Caetano uma música bela e triste, que se chama exatamente “estou triste”. Enfim, em seu novo disco o músico baiano foi muito feliz, escolheu um repertório eclético, fino e tudo o que se poderia dizer sobre ele não superaria nunca o prazer de ouvi-lo, em silêncio, de preferência.
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