Um polêmico trabalho de faculdade - defesa dos animais
Desde os primórdios se alardeou por aí a superioridade do seres humanos sobre os animais, superioridade esta baseada num critério bastante questionável: a racionalidade. A História desmente tal critério. Ao longo dos anos, tudo o que o homem conseguiu foi promover a discórdia, insuflar conflitos mundiais, decapitar pessoas, oprimi-las. Não precisa muita veemência de minha parte para provar o que digo, os noticiários gritam aos nossos ouvidos todos os dias as conseqüências da “racionalidade” dos seres humanos, nem é preciso aqui elencar todos os horrores promovidos pelos detentores da dourada razão, basta, como eu disse, abrir qualquer livro de História Universal, está lá tudo registrado. Ao longo dos séculos os homens cometeram genocídios, guerras mundiais, ditaduras de todos os tipos, fizeram proliferar a fome, a injustiça, a desigualdade social, contribuindo para o aumento da violência urbana, da guerra civil que presenciamos todos os dias de dentro de nossas prisões de medo e egoísmo, barbarizaram as mulheres, escravizaram os negros, e outras excelentes provas de como a razão, a tão endeusada razão, os coloca no topo da hierarquia da natureza. Hoje, a má índole do gênero humano tem mostrado sua face mais perversa: ampla rede de pedofilia, maciça destruição de nossas reservas ambientais por parte dos interesses econômicos, crimes cada vez mais escabrosos, etc, etc, etc. Diante de tal quadro, pergunto: quem é o animal?
Alguns (vários) autores chamados de clássicos pela nossa pós-modernidade tardia já questionaram essa noção de humanidade racional. Shakespeare, para citar um, em algumas de suas peças, como Rei Lear, usa verbos que aproximam seus personagens dos animais, como “Ele vai farejar uma saída...”, e outros. Sabe-se indubitavelmente que o bardo inglês nutria uma visão imensamente pessimista sobre o gênero humano. Se se quiser constatar isso, basta ler Hamlet, Macbeth, Rei Lear já citado, e outros.

O ser humano é capaz disso
Alguns (vários) autores chamados de clássicos pela nossa pós-modernidade tardia já questionaram essa noção de humanidade racional. Shakespeare, para citar um, em algumas de suas peças, como Rei Lear, usa verbos que aproximam seus personagens dos animais, como “Ele vai farejar uma saída...”, e outros. Sabe-se indubitavelmente que o bardo inglês nutria uma visão imensamente pessimista sobre o gênero humano. Se se quiser constatar isso, basta ler Hamlet, Macbeth, Rei Lear já citado, e outros.
.Papai Freud também via os homens com muita suspeita, para não dizer que queimava os charutos enquanto analisava o homem como um monstro em potencial escondido sob a capa do autocontrole.
Platão, em alguma parte da República, antecipando Freud, diz que os homens reprimem seus desejos para viver em sociedade, mas à noite, enquanto dormem, tais desejos burlam a razão e não há animalidade que eles não sejam capazes de cometer.
Ah, se não fosse a sublimação...
Recentemente assisti a uma reportagem que mostrava como os animais estão estressados devido à atitude insana assumida por nós, emancipados seres, inteligentes o suficiente para não resolvermos as grandes questões sociais, como a fome, a saúde pública, a violência e outros. Sim, os animais estão estressados porque horrorizados com nossas atitudes, porque queimamos seu habitat para depois reclamarmos do aquecimento global, porque somos estúpidos demais para destruir nosso planeta e depois lamentar nosso próprio erro. Ora, Carl Segan afirmou, todos o sabem, que se não houver uma colonização de outros planetas rapidamente, a extinção da Terra será inevitável. Sim, o homem colonizará outros planetas, mas os destruirá igualmente, porque seu instinto destrutivo lhe é inato e incoercível. Agora, quem quiser acreditar que vivemos no reino cor-de-rosa de Alice, que o mundo e os homens são uma maravilha, cada um que tape os olhos como quiser e entregue a responsabilidade nas mãos de algum “outro” abstrato ente, Deus, ou que seja.
Recentemente assisti a uma reportagem que mostrava como os animais estão estressados devido à atitude insana assumida por nós, emancipados seres, inteligentes o suficiente para não resolvermos as grandes questões sociais, como a fome, a saúde pública, a violência e outros. Sim, os animais estão estressados porque horrorizados com nossas atitudes, porque queimamos seu habitat para depois reclamarmos do aquecimento global, porque somos estúpidos demais para destruir nosso planeta e depois lamentar nosso próprio erro. Ora, Carl Segan afirmou, todos o sabem, que se não houver uma colonização de outros planetas rapidamente, a extinção da Terra será inevitável. Sim, o homem colonizará outros planetas, mas os destruirá igualmente, porque seu instinto destrutivo lhe é inato e incoercível. Agora, quem quiser acreditar que vivemos no reino cor-de-rosa de Alice, que o mundo e os homens são uma maravilha, cada um que tape os olhos como quiser e entregue a responsabilidade nas mãos de algum “outro” abstrato ente, Deus, ou que seja.
É claro que há reducionismo nos textos analisados, mas há também argumentos bastante convincentes nos mostrando que os animais partilham de muitas características humanas. Não chegam a nos igualar, lógico, mas assumem certas posturas muito parecidas com as nossas. O problema é que o orgulho, a arrogância, a petulância da espécie humana jamais a deixarão enxergar tal fato. Os homens reagem feito idiotas diante de tal afirmação, deixando à mostra os caninos da suscetibilidade afetada, arrepiando os pêlos da presunção estúpida, os argumentos com os quais eles contra-atacam são bastante idiossincráticos. E quando alguém do peso científico de Frans de Waal afirma que os animais também possuem moral, aí sim, os humanos, os “evoluídos”, os discípulos do imperativo categórico, uivam revoltados contra tão polêmica tese.
Ainda que a tese de que os animais não alcançam a mesma escala evolutiva do que os homens seja verdade, isso não invalida o fato de que eles não podem ser mais brutamente sacrificados, tratados indignamente, seja lá qual for a concepção contrária. A ciência não possui a última palavra, claro, mas avança sempre em novas descobertas. Quem é capaz de garantir que futuramente não serão feitos novos avanços no sentido de equiparar homens e animais e promover a integração entre os dois?
É Armesto quem fala: “É difícil encontrar hoje em dia qualquer capacidade supostamente que os primatólogos não digam que está replicada em outros macacos: uso da linguagem, fabricação de ferramentas, imaginação simbólica, autoconsciência – imagine qualquer uma, sempre haverá macacos não humanos que a exercem.” (A Arena da condição Humana, Fernández Armesto, do livro Então Você Pensa que é Humano?,São Paulo, Cia das Letras, 2007)
Ao ouvir tal afirmação os homens estremecem, encolerizam-se. Não sabem eles que, vivendo em sociedade, têm de usar as coleiras das leis impostas, ou resvalam pra selvageria pura e simples (quem nunca leu Hobbes?), acabando por culminar no perigo de extinção. A civilização se fez assim, sob o cabresto das leis e da moral religiosa, caso contrário teríamos naufragado há muito. Isso não é animalesco?
A afirmação de que os animais são predadores de si mesmos não prova nada. Quem negará que os homens também perseguem e matam outros homens? Os animais o fazem por instinto de sobrevivência. E os homens?
Agora é Gary L. Francione quem fala: “Os animais dotados de uma capacidade de reflexão similar à nossa deveriam, de nossa parte, fazer parte de uma consideração moral e de uma proteção legal mais importante” - (Francione, L. Gary, Humanidade, animalidade, quais fronteiras?, extraído do Le Monde).

Agora é Gary L. Francione quem fala: “Os animais dotados de uma capacidade de reflexão similar à nossa deveriam, de nossa parte, fazer parte de uma consideração moral e de uma proteção legal mais importante” - (Francione, L. Gary, Humanidade, animalidade, quais fronteiras?, extraído do Le Monde).
Cito agora as palavras de Leandro Castro Muniz, da Puc Minas. A citação é longa, mas necessária: “Para a modernidade, a natureza se tornou um grande laboratório de experiências em que vidas não passam de objetos de uso extravagante e em que o desenvolvimento econômico instrumental levou o homem a percorrer um trajeto no qual a manutenção das necessidades orgânicas e o cuidado com a vida se transformaram em manutenção das necessidades do ego e do cuidado com o desejo. Passamos, portanto, do estágio biológico para o estado psíquico.”
E continua Leandro: “Uma ética baseada na razão e na valorização suprema da vida humana sobre todas as outras vidas nega a tese fundamental de ordem cosmológica traduzida pelas ciências biológicas como simbiose. “
E: “Uma ética universal deve considerar a vida como eixo central do devir, isto é, uma ética biocêntrica ou ecocêntrica, capaz de considerar virtuoso o aproveitamento e a reciclagem de recursos, e perverso o consumo e a extravagância desnecessária, sobretudo de vidas animais sacrificadas de forma bruta, descabida e desrespeitosa, apenas para atender ao consumismo desenfreado da vaidade humana” – sublinhado meu. (Muniz Castro, Leandro de, Direitos Humanos e Direito dos Animais: uma Ética a favor da Vida, Revista Apipe, Associação de Filósofos, Professores e Estudantes de Filosofia da Região Metropolitana de Belo Horizonte, Novembro de 2009, p. 47).
Não se pode mais continuar a matar os animais partindo dessa lógica excludente de que somos dotados de um elemento racional que nos permite, portanto, dispor de outros seres vivos, tampouco sob o argumento de que o homem necessita da carne dos animais para sobreviver, uma vez que há exemplos que provam o contrário. Conheço pessoas que não fazem uso de carne animal, nenhuma, desde crianças e que hoje estão em idade avançada sem apresentar nenhum problema de carência nutritiva, anemia, ou qualquer outro distúrbio. E afirmo: chegará o dia em que não será preciso mais submeter e matar os animais para o consumo de suas carnes, porque a ciência inventará um outro tipo de alimento capaz de substituí-las. Mas no presente momento a humanidade encontra-se bastante atrasada para tanto, vegeta ainda nos seus estágios mais arcaicos, mais primitivos, no lodaçal imundo do gozo bestial e do egoísmo homicida, gosta de se besuntar de gordura e carne alheias, não almeja nenhuma transcendência.
Foi proposta uma discussão dentro de sala a respeito do assunto. Creio que deixou a desejar, uma vez que partiu-se do pressuposto de que os homens são sim superiores aos animais, atitude esta que invalidou preconcebidamente qualquer argumento ao contrário. Respeito as opiniões dos outros, ainda que não concorde com elas (Voltaire). Porém, considero pouco inteligente extrair argumentos baseados nas idéias dos filósofos com o propósito de endossar opiniões cristalizadas. Isso não é filosofar, é papaguear, repetir conceitos de terceiros, porque não os temos. Tal fato me lembrou o argumento de autoridade, muito usado na Idade Média, segundo o qual o que era válido eram somente os argumentos baseados na Bíblia encarnada na pessoa dos padres da Igreja. Se fulano falou, então é verdade. Uma discussão que se proponha séria não pode partir do princípio de que detém a verdade, ou não é filosófica. Quero terminar dizendo que sou absolutamente contra qualquer crueldade cometida contra qualquer animal, seja por motivos científicos ou por necessidade. Almejo por uma integração dos espaços humanos e animais, uma integração homem-natureza, em prol da vida. Só uma coisa peço: respeito por todos os seres vivos.
Vagner Rossi
Louvável, meu caro Vagner. Muito bacana mesmo! Curto demais textos com tamanha sobriedade como o seu. Um abraço, Paulo Sartori.
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