Achei isto no meio dos meus textos
O filósofo inaugura um espaço que é só dele e de todos ao mesmo tempo. Não se trata propriamente de um sistema, ou estrutura, mas sim de um grande e continuo périplo partindo do pasmo até a problematização mais radical, problematização esta que por vezes se revela insolúvel. Pois é aí que o filosofar mais arguto se revela e se expande, no insolúvel. Estar diante do insolúvel é um incansável xadrez da mente que aguarda o xeque-mate que nunca virá, pois a procura é o filosofar. O insolúvel é o imperativo absoluto do filosofar, é a mola propulsora dos mecanismos aéreos do pensar, pensar que é giratório, que vibra no éter, mas cuja vibração produz abalos sísmicos. O filósofo é aquele que mira o nada no meio do oceano, lança seu olhar perscrutador ao redor e, ao fazê-lo, torna-se farol para todos os náufragos da aventura da existência humana. Ele não ostenta por aí os trajes desbotados do dia-a-dia e seu ramerrão anulador, seu rol de ocupações mecânicas e estúpidas, não, ele despe sua própria natureza, numa imponência astral de atitude única, livra-se de rótulos, ousa ser nu e único, único e nu, ele mesmo, só e assim. O filósofo é aquele sujeito que carrega nos olhos os fachos de uma luz devastadora a abrir sendas nas inóspitas searas da carne e do mundo. Ele tem a face pétrea trabalhada pelo sol e pelo vento, esculpida pelo exercício do pensar. O filósofo circula no tempo e nas origens. Ele se cala e constrói arquiteturas no abismo a alavancar os centros atávicos do universo. Maldito em si, condenado por si mesmo, é um anjo, mas é carne, carne e luz, um mero relâmpago. Basta ver o estalo. Quando a visão se ofusca, aí nasce o conhecimento.
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