“O fim da Filosofia revela-se como o triunfo
do equipamento controlável de um mundo
técnico-científico e da ordem social que
lhe corresponde”
“Não há dúvida que a Filosofia fala da luz da razão,
mas não atenta para a clareira do ser”
Heidegger
Heidegger explicita: a metafísica esqueceu-se do ser e preocupou-se exclusivamente com o ente. O ser, em sua dimensão existencial, ficou esquecido.
Quais as conseqüências desse esquecimento?
Heidegger pergunta por que pensar o ente e não antes o nada?
Esse nada possui uma dimensão existencial profunda. Nele está o ser esquecido. Para que esse ser se revele tem-se que se livrar de tudo o que o encobre (Heidegger chama de ídolos), aí, nesse nada o ser irrompe, ressurge.
O problema é que é impossível, do ponto de vista lógico, pensar no nada, simplesmente porque o nada é nada, não há uma categoria lingüística, lógica, chamada “nada”. Como pensar o nada? É justamente nesse paradoxo que está a raiz do problema.
Heidegger propõe uma ruptura radical com o modus operandi da metafísica, pois pensar o nada requer um despojamento da própria parafernália conceitual com que ela atua. Ao pensar o nada cai-se no abismo e aí o ser se revela. Ou seja, ao pensar o nada resgata-se o ser tornado ente, deixa-se de entificar o ser e ele ressurge.
Um dos sintomas do esquecimento metafísico do ser que Heidegger aponta é a angústia. Todo aquele que ex-iste, ou seja, aquele que possui uma raiz existencial de ser-aí no mundo, sente-se tocado pelas asas gélidas da angústia. O fato de ele sentir angústia outra coisa não significa que sua consciência está desperta, ele é uma existência autêntica, pois os que se deixam arrastar pelo turbilhão uniforme do cotidiano não possuem essa consciência penetrada pela ordem angustiosa. Estão adormecidos. A angústia nos mostra que há um problema e nos empurra para a sua solução: o resgate do ser perdido em meio a coisas. Como? Através do nada.
Tal tratamento situa o sujeito num nível de desamparo extremo. Ele se sente nu, caindo num vão sem fundo. Porém, tal queda não passa de um ensejo para o seu reerguer-se.
O poeta Rainer Maria Rilke disse:
“Lembra-te: o herói permanece, sua queda mesma foi um pretexto para ser - nascimento supremo” (Elegias de Duíno, p. 4)
O “nascimento supremo” é o do ser resgatado da entificação da metafísica.
Depois Rilke diz:
“Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo mais do que ela mesma.” (p. 5)
O ser transcende sua condição histórica e se realiza.
Quanto à dimensão nadificante, que mergulha o sujeito num desamparo terrível, Rilke afirma:
“Para nós não há amparo neste mundo definido.” (p. 3)
Trata-se do desnudamente do ser, livre do peso do ente, desnudamento este que exige esse mergulho no nada.
A respeito desse nada Rilke diz:
“E de repente, neste árduo Nada,
o ponto inexprimível onde a insuficiência pura
incompreensivelmente se transforma - e salta
àquela vazia plenitude
onde o cálculo de muitos algarismos
se resolve sem números.” (p. 30)
Para os orientais o nada possuía também esse sentido revelador, o nada como vazio que é plenitude, pois só através dele se chega a essa plenitude. Assim eles afirmam que o vazio é a forma e a forma é o vazio. Ou seja, a forma leva ao vazio e o vazio é a forma no sentido pleno, não coisificante, a “vazia plenitude’ a que Rilke alude nos versos acima.
Vagner Rossi
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