Esse nosso ofício reflexivo pode ser benfazejo em certos casos, mas quando resvala pra paranóia conceitual, quando a gente se torna meros colecionadores de idéias, aí a coisa fica patológica. Nietzsche viu muito bem isso, pois enxergou no homo teoricus e seu aparato intelectual que depois fomentaria a lógica e seu rigor dedutivo que acabaria por dar sustentação à ciência, inclusive aquela ciência que, na sua voracidade técnica e pretensão de controlar todos os fenômenos do universo, acabaria por adotar um sistema opressor sobre o ser humano fazendo com que ele perdesse sua subjetividade e fosse visto como um mero objeto passível de dominação, uma mentira cínica e um condicionamento doentio. O nosso querido bigodudo alemão via essa imagem do homem filosofante e lógico como uma doença na medida em que a vida ficava totalmente apartada, como se fosse provocada uma cisão entre ser e mundo, o que é um erro. Na verdade, creio que pensar demais nos embota, e digo pensar no sentido técnico de apreensão de conceitos, tal como se opera nas faculdades de filosofia, que formam professores de filosofia, jamais filósofos. Já o livre-filosofar, aquele filosofar que se dá de forma espontânea, sem métodos e escolas, esse é saudável se não se torna excessivo. 

Concordo com os zen-budistas, que possuem uma epistemologia muito interessante. Para esses sábios, esse tipo de inteligência acaba por se tornar entulho intelectual que nos impede de chegar à realidade das coisas, ao fundo vivo e ardente da vida. Quando pensamos, segundo os mestres do oriente, criamos projeções que colamos nas coisas e passamos a ver essas projeções como se fossem as próprias coisas. Nesse sentido, o pensar nos afasta de qualquer compreensão maior da vida. Eles têm uma metáfora muito bacana: imaginam a mente como um espelho que, quando está sujo, impede o reflexo da luz do sol (ou seja, a mente suja de conceitos e pre-conceitos impede que o pensamento flua), mas quando é limpo passa a refletir a luz para todos os lados. E é isso mesmo. A gente enche a cabeça de tantas idéias, e sobretudo idéias extravagantes, no caso da filosofia, que a mente fica travada, então passamos a nos expressar de forma ensaiada, estudada, enciclopédica e alimentamos a tola ilusão de que sabemos algo. A velha dúvida do Fausto, melhor arquétipo desse homo teoricus, é entre pensar e perder  a vida ou viver e abdicar de querer compreender. Já Fernando Pessoa lhe responderia que "Mais vale ser criança que querer compreender o mundo". Aliás, o poeta português possui sua versão subjetiva do clássico alemão, mas o seu melhor está em um de seus famosos heterônimos, o célebre Alberto Caeiro. Esse heterônimo encarnou muito bem  o tipo ideal preconizado pelos mestres zen. Trata-se de um naturalista que nega qualquer pretensão metafísica de se compreender algo e muito menos de se chegar ao âmago das coisas e alimenta um romântico anseio de regresso à natureza, fonte de toda beleza e pureza, origem da vida saudável que flui como um rio. São deles os versos mais belos, a meu ver, do complexo vate portuga. Ele canta: 

"Há metafísica bastante em não pensar em nada"

Esse verso o aproxima ainda mais dos mestres zen, pois estes possuíam uma doutrina conhecida justamente como não-pensamento, cujo pressuposto era que quando você não pensa o pensamento transborda dentro de você.

Em outro verso Pessoa expressa sua concepção fenomenológica do mundo, que deve sempre ser visto com o olhar renovado:

"Sinto-me nascido a cada momento
para a eterna novidade do Mundo"

Aqui mais uma vez percebe-se a influência oriental em sua poesia:

"Pensar é não compreender"

"Pensar é estar doente dos olhos"

O homo teoricus passa longe aqui, pois viver e se deixar levar é o segredo da sabedoria e da realização interior:

"Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar.

Amar é a eterna inocência
E a única inocência não pensar"

O contato direto com a vida revela um saber natural e mais percuciente do que a mera reflexão. Se soubéssemos o que é amar não amaríamos, escreveríamos teses sobre o amor sem saber o que ele é de fato.

Dispensam comentários estes magistrais versos, panegíricos da vida natural:

"O mistério das cousas? Sei lá o que é o mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E fica a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
de todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa"

Em tudo a noção clara de que a vida como ela é, sem ideais e mentiras, sem sofismas e teorizações, sem graduações, mestrados e doutorados, vale mais que toda a filosofia e ciência juntas.

Os zen afirmam que quando você vê uma árvore na verdade você não vê a Árvore em si, mas a sua própria projeção conceitual, intelectual "árvore". Se você quebra essa imagem, então passa não a saber o que a árvore é, mas a sentir seus frutos. Esses mestres orientais possuíam uma técnica para quebrar a rigidez da lógica linear, formal, que nos atravanca a lucidez: eles recitavam a seus discípulos, quando estes se encontravam imersos em algum tipo de elucubração metafísica, versos pequenos conhecidos como koans e que eram absolutamente díspares, absurdos, incoerentes, e o faziam justamente para que essa incoerência destruísse a lógica, fazendo com que seus discípulos, livres de toda especulação, tomassem contato direto com o real, experiência conhecida como samadhi, mas variando de acordo com as múltiplas denominações. Fernando Pessoa, cuja influência da sabedoria oriental é inequívoca, tanto que traduziu uma obra-prima do Oriente conhecida como A Voz do Silêncio, compilada e traduzida, por sua vez, pela grande teósofa Blavatsky, além de várias obras de outra eminente teósofa, Annie Besant, soube traduzir muito bem isso em versos, como aqui:

"Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de ter frutos na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?"

Trata-se de uma concepção sapiencial que nos remete à fenomenologia no que esta pressupõe de retorno às essências, de vermos as coisas sempre com novos olhos e deixar que tudo flua.

Outro grande gênio, o poeta H .D. Lawrence, nos provoca com a necessidade de termos sempre em mente o caráter tolo de uma abordagem intelectual da vida, para que nunca nos sintamos detentores de nenhum saber, sempre eternos buscadores dele. O poeminha a seguir se chama justamente Sabe-tudo:

"Tudo o que sabemos é nada, somos meros cestos cheios
de papel usado
a não ser que estejamos em contato com aquilo que ri
de todo nosso conhecimento" (transcrição ipsis-litteris)

O entulho intelectual está bem expresso nos "cestos cheios de papel usado". 

A tradição judaico-cristã condena o pensamento como pecaminoso, algo que nos afasta de Deus. A criança é o símbolo da pureza e do homo naturalis, tão bem versejado por Pessoa. Quem não se lembra do famoso "Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino dos Céus"? Exatamente o que Fernando Pessoa diz quando canta que "Mais vale ser criança que querer compreender o mundo".

Quando nascemos somos originais e espontâneos, somos criativos filósofos, mas o mundo, a sociedade e suas convenções estúpidas, essa educação que mais deseduca do que tudo, tudo isso nos transforma em seres aprisionados e limitados. Devemos aprender a desaprender, como disse o grande poeta Manoel de Barros. Alguém também já disse que cultura é o que fica quando esquecemos o que aprendemos. É isso.







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