Fico vendo pela TV (um documentário) essas raves eletrônicas onde milhares de pessoas se sacodem durantes dias sem parar. Pra mim, ao contrário do anátema moral a que são submetidas por certos setores puritanos da sociedade brasileira, se trata de uma celebração orgíaca do corpo que promove sua liberação total, seu descondicionamento, o desregramento de todos os sentidos. A música ali possui um efeito hipnótico e comanda os corpos, que, em báquico transe, deixam-se embalar pelo seu ritmo febril, até que, no limite, extenuados, sucumbem. Muitos, quando o terceiro ou quarto dia desponta, são flagrados desacordados pela grama (em geral essas festas são realizadas em sítios), como se os primeiros fachos do sol estivessem a revelar as vítimas imoladas de um ritual libertário.
Ali, nessas raves, tudo é permitido, rompem-se os códigos mais convencionais, o amor se exibe em sua forma múltipla, sem dono, sem prisões. Todo mundo beija todo mundo. Não sobra espaço para exclusivismos, para jogos de dominação e poder, tão comuns nos relacionamentos a que se convencionou chamar de amorosos, mas que, na verdade, de amor mesmo não há nada, havendo mais a máscara carrancuda da vaidade e da posse. O importante ali é gozar, experimentar de tudo.
A imagem que me vem à mente quando observo as raves é a de Woodstock, quando, lá pelo final dos anos sessenta, uma geração, que também clamava por amor e liberdade, entregou seus corpos à celebração de um gozo anárquico ao som do bom e velho rock’ and roll, símbolo máximo da contestação, na intenção de quebrar os padrões ascéticos e conservadores do seu tempo.
O aparelho psíquico do ser humano, cujas patologias se refletem diretamente sobre o corpo, uma vez que ambos estão entrelaçados, precisa de um espaço para se descondicionar, para respirar, para poder se soltar. As prisões dos códigos morais, éticos e das convicções religiosas mais irreligiosas impedem o pleno desenvolvimento das potencialidades do ser humano. O gozo, e falo gozo aqui no sentido mais rasteiro, orgasmo mesmo, é o máximo de liberação possível, é quando todos os laços são afrouxados, o que aproxima o indivíduo da morte, pois ela é também esse máximo de libertação. Bataille escreveu um livro famoso sobre isso. Precisamos jogar com o sexo, com o amor e com a poesia num mundo feito para podar, reprimir, não para permitir o desenvolvimento das singularidades que somos.
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