Fico vendo pela TV (um documentário) essas raves eletrônicas onde milhares de pessoas se sacodem durantes dias sem parar. Pra mim, ao contrário do anátema moral a que são submetidas por certos setores puritanos da sociedade brasileira, se trata de uma celebração orgíaca do corpo que promove sua liberação total, seu descondicionamento, o desregramento de todos os sentidos. A música ali possui um efeito hipnótico e comanda os corpos, que, em báquico transe, deixam-se embalar pelo seu ritmo febril, até que, no limite, extenuados, sucumbem. Muitos, quando o terceiro ou quarto dia desponta, são flagrados desacordados pela grama (em geral essas festas são realizadas em sítios), como se os primeiros fachos do sol estivessem a revelar as vítimas imoladas de um ritual libertário. Ali, nessas raves, tudo é permitido, rompem-se os códigos mais convencionais, o amor se exibe em sua forma múltipla, sem dono, sem prisões. Todo mundo beija todo mundo. Não sobra espaço para exclusivismos, para jo...
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Esse nosso ofício reflexivo pode ser benfazejo em certos casos, mas quando resvala pra paranóia conceitual, quando a gente se torna meros colecionadores de idéias, aí a coisa fica patológica. Nietzsche viu muito bem isso, pois enxergou no homo teoricus e seu aparato intelectual que depois fomentaria a lógica e seu rigor dedutivo que acabaria por dar sustentação à ciência, inclusive aquela ciência que, na sua voracidade técnica e pretensão de controlar todos os fenômenos do universo, acabaria por adotar um sistema opressor sobre o ser humano fazendo com que ele perdesse sua subjetividade e fosse visto como um mero objeto passível de dominação, uma mentira cínica e um condicionamento doentio. O nosso querido bigodudo alemão via essa imagem do homem filosofante e lógico como uma doença na medida em que a vida ficava totalmente apartada, como se fosse provocada uma cisão entre ser e mundo, o que é um erro. Na verdade, creio que pensar demais nos embota, e digo pensar no sentido técnic...
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“O fim da Filosofia revela-se como o triunfo do equipamento controlável de um mundo técnico-científico e da ordem social que lhe corresponde” “Não há dúvida que a Filosofia fala da luz da razão, mas não atenta para a clareira do ser” Heidegger Heidegger explicita: a metafísica esqueceu-se do ser e preocupou-se exclusivamente com o ente. O ser, em sua dimensão existencial, ficou esquecido. Quais as conseqüências desse esquecimento? Heidegger pergunta por que pensar o ente e não antes o nada? Esse nada possui uma dimensão existencial profunda. Nele está o ser esquecido. Para que esse ser se revele tem-se que se livrar de tudo o que o encobre (Heidegger chama de ídolos), aí, nesse nada o ser irrompe, ressurge. O problema é que é impossível, do ponto de vista...
Achei isto no meio dos meus textos
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O filósofo inaugura um espaço que é só dele e de todos ao mesmo tempo. Não se trata propriamente de um sistema, ou estrutura, mas sim de um grande e continuo périplo partindo do pasmo até a problematização mais radical, problematização esta que por vezes se revela insolúvel. Pois é aí que o filosofar mais arguto se revela e se expande, no insolúvel. Estar diante do insolúvel é um incansável xadrez da mente que aguarda o xeque-mate que nunca virá, pois a procura é o filosofar. O insolúvel é o imperativo absoluto do filosofar, é a mola propulsora dos mecanismos aéreos do pensar, pensar que é giratório, que vibra no éter, mas cuja vibração produz abalos sísmicos. O filósofo é aquele que mira o nada no meio do oceano, lança seu olhar perscrutador ao redor e, ao fazê-lo, torna-se farol para todos os náufragos da aventura da existência humana. Ele não ostenta por aí os trajes desbotados do dia-a-dia e seu ramerrão anulador, seu rol de ocupações mecânicas e estúpidas, não, ele despe sua próp...