A literatura
brasileira é uma das ricas do mundo. Não só ela, mas a cultura brasileira é uma
das mais profícuas e consistentes do mundo. Temos atores e autores respeitados
em âmbito geral, gente do teatro, das artes plásticas, da literatura e outras
áreas afins. No meu caso, iniciei-me como leitor pela literatura do meu país.
Cedo descobri Machado, Alencar, Manoel de Macedo, Lima Barreto, nossos poetas.
Minhas primeiras influências poéticas vieram dos nossos bardos. Lia tudo, sem
critério, misturava gêneros, indo do arcádico, passando pelo parnaso mais
formalista, pelo nosso rico simbolismo, até o modernismo e vanguarda. Minhas
leituras simbolistas ficaram indelevelmente gravadas no meu DNA poético. Certa
vez, em uma oficina literária ministrada por uma autora conhecida, esta
sugeriu, como de praxe, que escrevêssemos ali, de improviso, a título de
análise textual pura e simples. Elaborei, então, um miniconto bastante pessoal
e repleto de palavras esdrúxulas e rítmicas, uma das minhas heranças
simbolistas. Não falei a ninguém, óbvio, nem havia ali espaço para tal, mas a
autora, ao me ler, detectou no meu conto presença de Augusto dos Anjos, mesmo
meu conto tendo uma estrutura narrativa de conto. Aquilo me impressionou, pois
Augusto dos Anjos, como ocorreu com muitos, foi um dos poetas que eu mais li,
sabia e ainda sei versos seus de cor, mas para que essa influência fosse
detectada no texto foi preciso uma sensibilidade e uma capacidade de penetração
imensas, o que a autora tinha de sobra. Outro poeta a quem devo muito é o
catarinense Cruz e Souza. Desde a primeira vez que o li me identifiquei com seu
misticismo, seu transcendentalismo, sua aura de mistério e lascívia, seus
poemas cheios de epifania. Exemplo disso é este poema meu, escrito nessa fase
de formação, em que eu lia muito Cruz e Souza, poema antigo, composto há cerca
de uns quinze anos ou mais:
Ó ave taciturna e migratória,
Perdida nos abismos do Sem-Fim,
Envolta por uma aura azul de glória,
Deixando um rastro olente de jasmim!
A alma quer flanar na Eternidade,
Quer transpor os umbrais do
Imponderável,
Tirar o véu que encobre a realidade,
E comprovar, assombrada, o improvável.
Num júbilo e uma paz inebriantes,
Quer casar a alma com a alma do Todo,
Quer esquecer ao menos uns instantes
Que em outro instante longínquo foi
lodo.
Voa, ave ávida e grávida de ar,
No turbilhão dinâmico do vento,
Que a alma é viajante e está sempre a
chegar
Num momento e a partir noutro momento...
Mas não estou
aqui para me enredar num código auto-referente, quero sim falar aqui de um
poema desse nosso poeta competentíssimo que me chama a atenção pela sua
atualidade atualíssima. Trata-se do Sorriso Interior.
Citarei o soneto
integral, pois se trata de uma obra de suma importância dentro do que pretendo
falar.
Primeiro o
poema:
O ser que é ser e que jamais
vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo esse brasão augusto
Do grande amor, da nobre fé tranqüila.
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo esse brasão augusto
Do grande amor, da nobre fé tranqüila.
Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem ânsias e sem custo…
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.
Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.
O ser que é ser transforma tudo em flores…
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio!
Considero esse
poema importantíssimo no nosso contexto atual, não só pela sua indiscutível
qualidade literária, mas porque nos abre a confluências de ordem subjetiva,
dialoga com as teorias psicoterapêuticas vigentes, sem falar nas implicações
filosóficas que ele evoca.
Na psicologia
hodierna usa-se um termo: resiliência. Significa a capacidade do sujeito de
enfrentar as contingências da existência factual, capacidade de superar limites
e obstáculos, e diz-se hoje que sabedoria consiste justamente nessa capacidade.
O poema nos joga
na cara, em um brado heróico e não menos retumbante do que nosso famigerado
hino parnasiano, exatamente esse poder do sujeito de superação, resiliência,
enfim. O poeta sugere uma dimensão onto-existencial que pode perfeitamente
remontar ao paradigma de herói grego tal como está gravado na paidéia helênica,
o ideal do forte guerreiro aliado à excelência moral, comumente detratada como
virtude, palavra perigosa, o sujeito que enfrenta os dragões da vida sem
descambar pro destempero, lembrando que a temperança é uma importante chave pra
interpretação do cidadão da pólis grega.
O ser do poema,
e proponho que o grafemos com maiúscula, o Ser cruzsouzeano é aquele que possui
em si um alto poder de resiliência, mas mais do que isso, ele consegue
inclusive arrancar de si, do alto de seu naufrágio, a mais fina ironia, ele
sorri e canta por entre as águas do dilúvio.
Ah, quanto de
Cruz e Souza há na alma do nosso povo brasileiro, que entra nas guerras
imortais da fome, da precariedade, da marca mais bruta das mais sangrentas
tragédias pessoais! Nem sempre ri, e não serei irônico aqui se supor que é
porque lhe faltam dentes, mas enfrenta e consegue, dentro de uma cadeia de
luminosos milagres, fazer do dilúvio fonte alimentadora para sua coragem. Mas
na maioria das vezes enfrenta os piores flagelos de maneira extremamente
bem-humorada E talvez não serei irônico também ao aludir aqui, em referência ao
dilúvio do poema, às enchentes que afogam nossos estados, ou também, usando de
minha verve poesiva sempre abundante em minha alma, extrapolar e sugerir, a
título de paráfrase, que as águas são substancialmente de lágrimas, lágrimas do
nosso povo, herói de tantos e tantos dilúvios.
Se recuarmos aos
estóicos, estes fizeram da razão o férreo carro que os guiava em tudo,
prescindindo do elemento emocional como algo corruptivo ao caráter forte do
sujeito, que deveria ser como uma pedra, suportando todos os acidentes da vida.
Assim os adeptos dessa escola filosófica são associados a um modo de vida
pétreo, austero, pois, livres das afecções das paixões, das emoções,
tornaram-se inflexíveis. Neles não se vê o sorriso a que o poeta catarinense se
refere em seu poema, mas a fortaleza interior mais identificada no verso que
diz:
Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.
Tirando o sorriso, também aqui, neste
verso:
Os abismos carnais da triste
argila
Ele os vence sem ânsias e sem custo…
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.
Ele os vence sem ânsias e sem custo…
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.
Essas “ondas
interiores de grandeza” são a base, pois, em consonância com o pensamento
estóico, tudo o que seja exterior deve ser eliminado, não devemos buscar jamais
a fonte de nossa alegria externamente, pois a fortaleza reside em nós, nós
somos a fonte forte e indestrutível, e não precisarei evocar aqui as inúmeras
referências cristãs ou não que permeiam o painel da filosofia. Santo Agostinho
que o diga, pois ele mesmo nos fala sobre o homem interior contra o exterior
(sem nos esquecermos de que o estoicismo foi uma das doutrinas pagãs que tanto
marcaram o cristianismo, não como imposição cultural hegemônica, óbvio, mas
como modo de abordagem, leitura, confluência).
Relendo o poema,
veio-me à mente a emblemática imagem de um dos poetas mais complexos e amados,
o grande lusitano Fernando-muitas-pessoas-Pessoa. Leiamo-lo e ele falará por
si:
“Uma
interpretação irónica da vida, uma aceitação indiferente das coisas, são o
melhor remédio para o sofrimento, posto que o não sejam para as razões que há
para sofrer.”
A
“aceitação irônica da vida” se casa muito bem com a ironia das dores do poeta
catarinense, ambos os poetas explicitam cunhos de altíssima sapiência em seus
versos, Cruz e Souza principalmente participa já do conturbado panorama da
nossa tão má denominada pós-modernidade, onde há que se vencer sempre, há que
se enfrentar tantas guerras não sem susto e há que se contrapor, às dores do
mundo, a mais sábia e feliz ironia. Cantemos por entre as águas do dilúvio,
enfim.
Além
disso não vou, porque pretendo, assinalando o fim deste ensaio, ironizar a
eloqüência caudalosa dos nossos doutos acadêmicos, reagindo a ela com minha
anti-acadêmica concisão, e não serei menos estóico por isso. Talvez menos
sábio.
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