É comovente como o poema nos causa impressão, como um flashe meteórico que nos ofusca a visão, como um tapa, um tapa súbito, e o poema faz isso sem precisar, como na filosofia, se utilizar da violência do conceito, da razão bárbara, o poema infunde uma verdade musical na alma e essa verdade se torna indelével em nós, o poema não explica nada, ensina com substância impensada, e isso é belo e universal, a razão só empobrece, limita, nos dá um xérox pálido de tudo, a poesia culmina no fundo do espírito e lá aquele clarão de que falei nos ilumina.

Acho este poema belíssimo:

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais 
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde 
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.




                      José Luís Peixoto

 

É significativo como o autor consegue nos transmitir o caráter de eterna perenidade do mundo e de como vamos nos afastando das coisas e elas nos afastando de nós, mas, ao mesmo tempo, há um substrato imaterial e indestrutível, algo que não se vai, não se casa, algo que durará sempre, enquanto houver memória, e isso é belo e me emociona, a memória que torna grandes os grandes, que os mantém, que os sustenta, não é uma coisa dura, não é um dado bruto, não se compra na feira, está aí e nos alimenta além do tempo, tempo de ser e estar, tempo de restar. Enquanto houver uma pessoa a memória de toda uma família jamais se perderá, enquanto houver alguém à mesa, e lembremos de que a mesa sempre foi carregada de um teor ideológico, ela agrupa pessoas (sociabilidade), ela o faz para a refeição (o sustento, o pão, símbolo cristão de comunhão e caritas), a mesa é símbolo de sustentáculo da memória justamente porque gerações inteiras se agrupam em seu entorno para fazerem as refeições e se alimentarem também das dúbias emoções humanas, das experiências que sem essa troca não são nada, nada existe se não for compartilhado e a mesa é esse espaço de compartilhamento, é quando os membros de uma família podem finalmente fugir do automatismo da vida diária, de sua solidão inencontrável e dizer que ali estão todos bem, então podem rir, podem chorar também, podem dividir problemas, mas tudo isso significa vida, estamos vivos, afinal de contas, e esse poema consegue dizer isso e mais um pouco, pois não é a mera dissolução física da família que a extingue, é o afastamento afetivo, é a inexistência de vínculos de ordem familiar, filial, philia, amizade, amor, não mero laço sangüíneo, é isso o que mata uma família, que deixa de ser alimentada, e aí já não faz sentido pôr a mesa, porque este mundo é triste e vil, apesar de tão belo e tocante, é um mundo carregado de um sentimento de exílio tremendo, e no final, quando vemos que já não estamos mais à mesa, não há mais a quem servir, tudo acabou, o pão murchou-se, e é muito triste constatar isso, olhar pra trás e lembrar dos sorrisos brilhantes, das trocas, dos calores do coração, dos encontros e de repente perceber que não há mais ninguém à mesa, não há mais domingos de sol em torno dela, mas enquanto restar um, enquanto um apenas restar seremos cinco, seis, sete, mil, um milhão entorno à mesa nos alimentando de poesia. 

Eu choro...

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