Raul Seixas foi não só um profícuo bardo do nosso cancioneiro, mas também uma espécie de mago, de bruxo do bem, de esotérico adepto da ala branca de Madama Blavatsky e outras seitas, juntamente com seu parceiro Paulo Coelho, hoje conhecido autor de certo gênero pasteurizado destinado a uma concepção salvífica e, por isso mesmo, muito criticado. Suas canções ressoam em minha infância, onde ouvia ecos do clássico Gîta, lá pelos inícios dos anos setenta, até hoje, quando o ouço e fico absorvendo as emanações sapienciais que delas surgem.

Se fosse aqui falar de Gîta teria que trazer á luz análises de cunho filosófico sobre essa música, toda ela inspirada na obra sagrada do hinduísmo Baghavad Gîta, o que demandaria uma riqueza e profundidade que não vêm ao caso, porque não vou tratar dessa canção aqui, mas de outra não menos rica e importante, Metamorfose Ambulante. Aliás, o repertório do autor é vastíssimo e todo ele dotado de uma complexidade e grandeza que o colocam ao lado dos mais significativos compositores da nossa MPB.

Mas falemos sobre Metamorfose Ambulante.

Raul, nessa canção, filosofa de maneira feliz e genial, indo de encontro às concepções mais ricas da moderna antropologia e da teoria do conhecimento, que enxergam o homem como um processo (e aqui poderíamos evocar influências de Heráclito e Nietzsche pelo menos), homem que, diante da complexidade crescente, abstém-se de tecer comentários especulativos acerca do mundo de maneira dogmática e se entrega a um inteligente relativismo:

Prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo.

Raul aí é socrático, pois percebe que desconhece, que o conhecimento é contínuo, nada é como é, tudo está em vias de, sendo assim não é possível, a título de juiz prepotente, bater o martelo dos juízos pétreos e definir o isso e o aquilo.

Aliás, o próprio Raul parece trazer oculto, em sua capa mística, a figura do filósofo grego, pois ele mesmo diz “Eu não sei quem sou”, como se Sócrates revivesse nele sua versão barbuda e brasileira.

Eu quero dizer
Agora o oposto do que eu disse antes.

Os conceitos são vagos, contradizem-se constantemente, justamente por isso torna-se inviável qualquer tentativa de definição do que seja, dado que antinomias futuras a aguardam e a transformam em seu oposto. Todo ser dinâmico, portanto vivo, contradiz-se a si mesmo a todo instante, a incoerência nos habita a todos se somos abertos e fluidos, somente os dogmáticos jamais revisam suas posturas e pontos de vista.

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor.

Raul aí faz uma interessantíssima e rica análise do ser enquanto o outro, o seu contrário, não necessariamente seu oposto no sentido negativo, mas complementar. “Se hoje eu sou estrela amanhã já se apagou/se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor”. Perceba-se que o conflito reduz-se em amor. Raul está dizendo que a relação com o próximo se inicia muitas vezes como conflito, mas acaba como conciliação, outra coisa não fazendo do que evocar a figura de Hegel em sua célebre trindade tese-antítese-síntese. Primeiro se põe, depois se nega e em seguida se resolve. “Se hoje eu te odeio/amanhã lhe tenho amor”. A relação com o próximo, portanto, termina em complementação, não em oposição.

É chato chegar
A um objetivo num instante.

Chato o esgotar das possibilidades, chato e limitador, melhor é ser uma metamorfose, ser sempre um além-de. Raul era um baita filósofo.

Eu vou desdizer
Aquilo tudo que eu lhe disse antes.

Não seria ilícito de minha parte se analisar esses versos acima como ecos wittgensteinianos, pois o filósofo austríaco nos fala sobre a impossibilidade de se chegar a um entendimento através da linguagem, fonte de equívocos, onde o que falamos acaba por se voltar contra nós, embora também não seja ilícito ler esses versos dentro da transitoriedade das idéias humanas. Tudo em Raul é possível, ele é uma fonte inexaurível de sentidos.

Como disse, há inúmeras outras canções de Raul tão ou mais profundas e ricas e seria interessante fazer uma análise lítero-filosófica de suas canções, não no sentido pedantesco que só visa angariar os apupos da néscia platéia acadêmica, mas no sentido de se promover uma interlocução com sua obra, tornando ainda mais viva e atual. 

O poeta merece.

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