Postagens

Mostrando postagens de 2011
“O fim da Filosofia revela-se como o triunfo do equipamento controlável de um mundo técnico-científico e da ordem social que lhe corresponde” “Não há dúvida que a Filosofia fala da luz da razão, mas não atenta para a clareira do ser”                               Heidegger Heidegger explicita: a metafísica esqueceu-se do ser e preocupou-se exclusivamente com o ente. O ser, em sua dimensão existencial, ficou esquecido. Quais as conseqüências desse esquecimento? Heidegger pergunta por que pensar o ente e não antes o nada? Esse nada possui uma dimensão existencial profunda. Nele está o ser esquecido. Para que esse ser se revele tem-se que se livrar de tudo o que o encobre (Heidegger chama de ídolos), aí, nesse nada o ser irrompe, ressurge. O problema é que é impossível, do ponto de vista...

Achei isto no meio dos meus textos

O filósofo inaugura um espaço que é só dele e de todos ao mesmo tempo. Não se trata propriamente de um sistema, ou estrutura, mas sim de um grande e continuo périplo partindo do pasmo até a problematização mais radical, problematização esta que por vezes se revela insolúvel. Pois é aí que o filosofar mais arguto se revela e se expande, no insolúvel. Estar diante do insolúvel é um incansável xadrez da mente que aguarda o xeque-mate que nunca virá, pois a procura é o filosofar. O insolúvel é o imperativo absoluto do filosofar, é a mola propulsora dos mecanismos aéreos do pensar, pensar que é giratório, que vibra no éter, mas cuja vibração produz abalos sísmicos. O filósofo é aquele que mira o nada no meio do oceano, lança seu olhar perscrutador ao redor e, ao fazê-lo, torna-se farol para todos os náufragos da aventura da existência humana. Ele não ostenta por aí os trajes desbotados do dia-a-dia e seu ramerrão anulador, seu rol de ocupações mecânicas e estúpidas, não, ele despe sua próp...

De Ortega y Gasset

"Na arte toda repetição é nula"
"Espero que algum garotão pirado deixe seu panfleto em meu túmulo para que assim Deus o leia para mim nas frias noites de inverno do céu"                                         Allen Ginsberg
"Sou um pterodátilo numa gaiola. Um corvo bicando o ventre de um espantalho. Um homem sem medo do terror que é viver sem medo"                               Rodrigo de Souza Leão
"O processo de percepção e a ação dos sentidos não esgotam a experiência dita estética, e menos ainda porque a arte considerada habitualmente como exemplar, a poesia,  não é em sua essência relativa à visão nem à audição, mas exige a mobilização do espírito. A beleza da poesia sustenta-se em seu sentido e não pode ser separada de sua verdade"                      Todorov

De uma metáfora (uma fenomenologia do lugar)

Me deparei com uma bonita metáfora, tirada das páginas de algum autor (provavelmente Marguerite Duras, se a minha débil memória não falha, e sempre falha): não somos nós que habitamos uma casa, mas ela quem nos habita. De fato, a casa é um espaço de percepção subjetiva, onde a memória afetiva fica impressa no sujeito de forma indelével.  Poderia me deter aí e apelar para Bergson seguido de Proust, mas vou além e subrepticiamente, para sacanear com os autores de que gosto (assim lhes rendo uma homenagem - ou seria ménage? ), afirmo que uma casa é o âmago propício a intervenções - digo "intervenções", e não, como diria nosso amigo Bergson, "memória como duração interior" -, onde confluem passado, presente e futuro e se desfolham, ante nossa visão de centro, as páginas de toda uma vida, senão molhadas com lágrimas, ao menos sentidas com certa profundidade. Mas tais intervenções logo se secam recolhidas por uma ampla abordagem histórica que nos empurra avante. Ness...
"Em sua simplicidade, a imagem não tem necessidade de um saber. Ela é a dádiva de uma consciência ingênua" "Numa imagem poética a alma afirma a sua presença"                Bachelard

Uma nota sobre Bachelard

Bachelard promove uma revitalização da linguagem, uma fenomenologia da obra poética, adotando o ponto de vista segundo o qual a imagem possui o poder de revelar a coisa, fazê-la aparecer diante do sujeito. Porém, não se deve, para tanto, adotar o velho rigor dedutivo que tanto norteou a postura filosófica tradicional, mas, ao contrário, mergulhar no ilogismo, na profundidade da imagem poética, ela mesma presença e verdade.                Vagner

Um fragmento novalisiano

“Somente um artista pode decifrar o sentido da vida”    Novalis
"Uma filosofia, quando está em sua plena virulência, não se apresenta nunca como uma coisa inerte, como a unidade passiva e já terminada do Saber; nascida do movimento social, ela própria é movimento e morde o futuro"                Jean-Paul Sartre

Linguagem ou Tirania - Uma Análise Política do Fenômeno Lingüístico

A linguagem nunca se constituiu apenas como simples instrumento mecânico de troca de signos entre os participantes de uma comunidade social, tampouco é, como alguns acreditaram, um “sistema de regras observáveis” ao qual o sujeito se submete, mas é a superestrutura ideológica do mundo; como tal, certas relações de poder no discurso – já bastante analisadas, diga-se de passagem – devem ser detectadas no próprio fenômeno lingüístico. A linguagem deveria ser um complexo de interação entre dois falantes, onde deveriam ser obedecidas certas regras, como o direito do interlocutor expor suas concepções sobre o assunto dado, bem como o de permitir que o outro também o faça. Acontece que não é isso o que se verifica na prática, onde a relação que se estabelece é puramente vertical, sendo que um domina a fala e impõe dogmaticamente suas pretensas verdades universais, sendo o outro um mero depósito. A linguagem é um organismo vivo e não um sistema pétreo, um conjunto de regras observávei...

Ortega Y Gasset

Pretendo aqui abordar os tópicos principais da filosofia de Ortega Y Gasset e sua importância para a contemporaneidade, enquanto uma práxis libertadora e humanista. RAZÃO INSTRUMENTAL Ortega Y Gasset enceta uma crítica radical à razão instrumental. Segundo ele, o que predomina é a fria lógica de uma razão voltada para a produção quantificável, que tem a pretensão de ordenar o universo, de moldá-lo autoritariamente, sempre voltada para os interesses do Estado burguês administrativo (lê-se Weber). O autor não desconsidera a importância dessa razão quando ela consegue promover um maior conforto aos homens, como no caso da tecnologia, mas afirma que tal razão é desumana à medida em que se volta contra os indivíduos para manipulá-los e guiá-los de acordo com a demanda de um mercado que visa apenas ao número, não à qualidade. A MERA OBSERVAÇÃO DOS FATOS COMO CRITÉRIO DA CIÊNCIA Ortega, remontando a Galileu, critica a ciência pelo fato de esta crer que, pela simples observ...

O Castelo de Kafka - Possíveis Interpretações

O livro O Castelo, de Kafka, é uma das obras-primas do autor, ao lado de A Metamorfose e O Processo. Kafka pode ser incluido, ao lado de Albert Camus, no rol dos "filósofos" do absurdo, pois denuncia a estranheza a que toda existência está sujeita, lançada a um mundo sem escolha, obrigada a se engajar e construir seu destino, preocupada em conquistar sua liberdade, mesmo que seja de forma violenta, inserida numa sociedade cujas forças políticas a manipulam, tornando-a um boneco de acordo com as conveniências do poder constituído. Isso é muito presente em O Processo, tanto quanto em Camus e seu O Estrangeiro. O mundo é absurdo e só se sai dele pela fé, ou pela adesão política, ou pela sublimação estética, filosófica, ou pelo fim (suicídio). O livro O castelo narra a história de um sujeito que tenta chegar até o topo para falar com as pessoas que lá estavam, mas todas as suas tentativas são frustradas e ele acaba por sucumbir. Bem, alguns fazem uma interpretação gn...

Bakhtin, um Precursor

O lingüista russo Mikhail Bakhtin (1895-1975) foi um precursor da lingüística moderna, sobretudo antecipou muitas das idéias da sociolingüística. Por causa de sua dissidência política em relação ao autoritarismo de Stálin, assinou algumas de suas obras com o nome de discípulos e amigos seus, como ocorreu com sua obra principal Marxismo e Filosofia da Linguagem, em que assina Volochínov. Bakhitn distingue duas concepções de língua: a do subjetivismo idealista, onde a língua é apenas um fator psíquico, o sujeito falante totalmente desvinculado do processo histórico, e a do objetivismo abstrato, que desdenha do fenômeno da fala individual, preconizando a lingua como sistema de regras ao qual o sujeito se submete. Influenciado pela filosofia marxista, Bakhtin, concentrando suas críticas em Saussure, afirma a língua como fenômeno social, ideológico. A fala está ligada às condições de comunicação que, por sua vez, estão ligadas às estruturas sociais. Bakhtin afirma que t...

Apocalípticos e Integrados (Em desesa da cultura de massa)

Para os que se atêm ao velho e viciado discurso acadêmico que, no campo da estética, ainda se agarra aos epítetos adornianos como perspectiva crítica, vale lembrar que Umberto Eco, ninguém mais ninguém menos do que o maior semiótico da história, em seu livro Apocalípticos e Integrados, faz uma interessante defesa da tão difamada cultura de massa. Eco começa por distinguir aqueles que são de espírito mais flexível, mais abertos em relação às inovações artísticas, os  integrados, e os que defendem posturas rígidas tipicamente conservadoras e são refratários a qualquer busca por uma nova expressão estética, os apocalípticos. Quando penso em apocalípticos impossível não  virem à minha cabeça as famigeradas bienais de São Paulo, vítimas de críticas de autores reconhecidos, como Ferreira Gullar. Gullar se refere sempre às bienais de sampa como algo que não deve ser levado a sério, quase uma fraude. Certa vez afirmou que as instalações de uma das bienais eram uma tentativa d...

Um Ensaio Esotérico

Imagem
O pensamento não é algo que se apaga no vazio. Poderíamos dizer, com Mallarmé, que “todo pensamento emite um lance de dados”. Ao pensarmos, nossos pensamentos se tornam centros de força, agrupam-se e criam a realidade, formam-na. Tudo depende, então, do modo como pensamos: se alimentamos pensamentos de carga positiva, elevada, a energia irradiada se plasma no mundo concreto, gerando coisas boas, mas o contrário também é verdadeiro. Os budistas, os místicos, os ocultistas, os adeptos da Cabala, os teósofos de todo o mundo conhecem esse segredo, que foi banalizado e comercializado em nosso tempo através do livro seguido do filme O Segredo. O livro budista canônico Dhammapada (O Caminho da verdade) - uma compilação da doutrina exposta por Sidarta Gautama, o Buda, aos seus discípulos -, logo no primeiro parágrafo do primeiro capítulo, afirma: “Todas as coisas são precedidas pela mente, guiadas pela mente e criadas pela mente. Tudo o que somos hoje é resultado do que temos pens...