A imensa corrida
desenfreada do centro da cidade ancorada no dinheiro e no poder, as praças
apinhadas, onde, no poente em sangue, explodem captações de sentidos
mundividentes, os cafés embalados pela retórica dos discípulos de Demóstenes,
os carros no fluxo das vias abertas como punhos suicidados, os arranha-céus
pipocando em luzes apoteóticas como a querer contato com civilizações
longínquas, tudo isso, os negritos nos jornais evidenciando acontecimentos,
tudo isso apenas diz: as pessoas se procuram nas coisas e justamente nelas se
perdem. As pessoas se perdem porque buscam se refletir naquilo que não são. É
fato, todavia, que tudo está impregnado do humano, o mundo apresenta, por toda
parte, vestígios do humano labor, por toda parte há ecos do anthropos, nas
artes, nas ciências, na tecnologia, na filosofia, na fé, em tudo há a marca
indelével desse ser em sua imensa procura e esquecimento de si, pois, ao se
buscarem nas coisas de fora, as pessoas se esquecem das coisas de dentro, onde
realmente moram. Assim, os homens são Ulisses em busca de sua Ítaca primordial
interior. Mas, ao buscarem erradamente se completar em suas objetificações,
naufragam no terrível saara repleto de sombras turvas que é o mundo em si, se
coisificam, pois se confundem produtores e produtos. Os homens, esses eternos
desconhecidos, mergulham de vez no vendaval obscuro de sua própria desaparição.
"As loucuras da última esbórnia devem ser sepultadas em eterno olvido a fim de abrir o máximo espaço para as loucuras da próxima" (David Hume) Vejam que Hume era um fanfarrão. Não sou eu que estou a dizer, é ele próprio, como se pode confirmar aí em cima. Os filósofos necessitam de noitadas regadas a muito álcool, Não foi à toa que Platão foi em tantos banquetes. E Sócrates? Quem não se lembra que no final do livro, cujo título em si já diz tudo, O Banquete, todos tombam, totalmente ébrios? Sócrates era tão chegado a uma taça que ao receber a taça de cicuta que o mataria sugeriu que se fizesse um brinde, ao que o carcereiro achou que não seria conveniente devido às circunstâncias. A esbórnia é, por assim dizer, a pátria de todo gênio, senão como suportar a vida? E Baudelaire? "Embriaga-te", era o seu lema. Horácio, que, como Sócrates, não era muito chegado à labuta, inventou o "carpe diem", aproveite a vida. Parece que nossos políticos levaram a séri...
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