A imensa corrida desenfreada do centro da cidade ancorada no dinheiro e no poder, as praças apinhadas, onde, no poente em sangue, explodem captações de sentidos mundividentes, os cafés embalados pela retórica dos discípulos de Demóstenes, os carros no fluxo das vias abertas como punhos suicidados, os arranha-céus pipocando em luzes apoteóticas como a querer contato com civilizações longínquas, tudo isso, os negritos nos jornais evidenciando acontecimentos, tudo isso apenas diz: as pessoas se procuram nas coisas e justamente nelas se perdem. As pessoas se perdem porque buscam se refletir naquilo que não são. É fato, todavia, que tudo está impregnado do humano, o mundo apresenta, por toda parte, vestígios do humano labor, por toda parte há ecos do anthropos, nas artes, nas ciências, na tecnologia, na filosofia, na fé, em tudo há a marca indelével desse ser em sua imensa procura e esquecimento de si, pois, ao se buscarem nas coisas de fora, as pessoas se esquecem das coisas de dentro, onde realmente moram. Assim, os homens são Ulisses em busca de sua Ítaca primordial interior. Mas, ao buscarem erradamente se completar em suas objetificações, naufragam no terrível saara repleto de sombras turvas que é o mundo em si, se coisificam, pois se confundem produtores e produtos. Os homens, esses eternos desconhecidos, mergulham de vez no vendaval obscuro de sua própria desaparição.

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