Pirado no íntimo, louco, mas livre,
autêntico, sentindo um carrossel de diversos afetos pulsando em mim, vendo
coisas que se misturam, os olhos dos outros se ofuscando na névoa, os faróis
dos carros, os prédios, o mundo-vertigem no colapso do ser-aí. Louco, dizem,
louco sim, e feliz, o que vocês não suportam, louco e sem idéias. As idéias são
furtos dos nossos momentos mais felizes, são amargos venenos de esquecimento,
mas, quando ultrapassamo-las, aí vem o entendimento. Sem leis, apenas as de
dentro, sem moral, sem juízos, apenas o respeito pelo próximo. Louco e
alucinado. Não preciso de moral nem de ética. Isso são coisas inventadas pela
sociedade porque ela não consegue sobreviver sem matar e cria conceitos de
justo e injusto pra manter a coesão e preservar a vida. Essa é a nossa bela
civilização: assassina, mentirosa, atrasada! Um novo mundo desperta para mim
agora. Rodeio as pessoas, feliz. Vejo um equilibrista se apresentando na praça
molhada de chuva. Temos todos que ser equilibristas na vida. O ódio dos bêbados
enjeitados tenta me acertar, mas eu o contorno com minha dança. Não tenho
necessidade de identidade. Assim, vidrado, o coração a mil, sigo uma rota
ignota e me encontro no exato instante de não se medir absolutamente nada. Que
horas são? É a Hora. Que dia? É o Dia. Não quero mais saber do chão, apenas da
brisa. Meu corpo diáfano é mais leve que a luz.
Participei, nesse final de semana, de uma excelente oportunidade de troca viva de idéias e experiências sobre o ato da escrita. Deu-se em uma oficina na montanhosa região do Bairro Jardim Canadá, em Nova Lima, sob a supervisão da escritora e psicóloga Tânia Cristina Dias e do teatrólogo e também escritor Carlos Renatto. Os idealizadores da oficina Carlos Renatto e Tânia Cristina Dias Acho inciativas como essa heróicas, não só por se tratar de um setor tão negligenciado como a cultura, mas por ser uma atitude de encontro, de troca intensa e presencial de idéias, contrariando o ofício de escrever, sempre solitário. Troca de idéias Tivemos oportunidade de nos conhecermos e expandirmos nossas visões sobre arte, criamos juntos como o crente comunga uma hóstia. Isso é ótimo, pois em geral os artistas, por se dedicarem a um ofício subjetivo, vivem muito para dentro, são vaidosos, suscetíveis e nutrem uma idéia supervalorizada de suas obras. Ali reescrevemos conto...
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