Minha relação com a palavra é ambígua, anfíbia, é um espaço de cio que me toca, eu me desequilibro, caio, meus ossos se partem e deles nascem essências inteiras reunidas num corpo íntegro.

Escuto as palavras para entender seus segredos, depois fico mudo e traduzo minha mudez em som, mas o que não digo me escuta mais do que a mim e me declama. Eu sou o espelho das minhas próprias vírgulas (vísceras).

Meus versos são noturnos, gostos de palavras pesadas, difíceis, carregadas, gosto do seu férreo aspecto, das construções bem cimentadas mas que se dissolvem com um frêmito (gosto de palavras como “frêmito”). É o meu jeito de amanhecer. Através do denso pano trevoso dos meus versos meu sol se dilata e expande outros horizontes. É assim com alguns: precisam de um caos dentro de si para gerarem a luz mais ofuscante (copyright - Nietzsche).

Não sou dado a efusivas expansões líricas, aos arroubos apaixonados dos vates inspirados, não gosto muito da poesia caudalosamente derramada como um pote de doce. Quem come muito mel se lambuza.

Todavia, sei rir de tudo, mas do meu jeito, amarga, cinicamente.

Experimento possibilidades, testo as potencialidades da língua, não gosto de fórmulas prontas, de regrinhas arbitrárias, dos sábios ensinamentos dos veneráveis mestres de antanho. Creio, com Borges, que todo escritor deve encontrar seu próprio caminho. Estou caminhando e não desejo apontar qual a estrada certa ou a curva a ser dobrada a ninguém. Nem eu sei, é por isso que aprendo e continuo caminhando.

Meus poemas, em muitos casos, soam pesados demais, sobretudo aos leitores mais afeitos à poesia declamatícia, verbosa e esparramada. Para mim, literatura, poesia, arte em geral é um tubo de ensaio, laboratório. Vou tentando aqui e ali, fujo para o conto, vou para o ensaio, volto para a poesia, crio outros moldes, sempre tentando fazer de um jeito que eu nunca sei qual é e sempre testando e inventando.

Para mim, poesia é a eterna arte da invenção.

Toda a minha obra é multifacetada, abrange sonetos, prosas poéticas (o que Caetano belamente chamou de proesia), às vezes são anotações inacabadas de pensamentos meus que escrevi como para não perder o súbito insight da hora, outras são artigos descompromissados (sempre) com as leis acadêmicas, tirando os que, em virtude de ser eu um estudante universitário de filosofia, tive e tenho de escrever para a faculdade, empobrecendo-me e sendo encaixotado na limitadora régua das norminhas humanas, às vezes são versos cuspidos no papel e deixados lá, sem retoques, pois quem admira maquiagens são as mulheres e os atores, outras são epigramas, aforismos, enfim, o mosaico de mim. Acho que de tanto escrever poesia agora é a poesia que me escreve.

Sou dado à palavra como a água à nascente. As coisas brotam e me assustam. De repente estão no papel e eu tenho de assinar por elas. Toda escrita é um susto para mim, um milagre. Às vezes, de uma página em branco desentranho reinos magníficos. Aí está o maravilhoso da poesia, criar do nada. Os cristãos não dizem que Deus criou o mundo do nada?  Porém, poetas e artistas em geral não são deuses, são humanos, incorrigíveis e incompletos, por isso a arte existe, dizem. Criamos para sair do abismo, para vencer o inferno (copyright - Antonin Artaud).

Bom ou mau poeta, não sei nem me interessa. Quem julgará? Não escrevo pensando em ser bom ou mau poeta, escrevo apenas pensando em escrever. Eu não julgo, eu escrevo. Julgamentos não são para poetas e artistas, são para os que estão certos demais das coisas e eu não estou certo de absolutamente nada e a cada dia sinto-me mais ínfimo diante do mundo. Sou uma criança louca que olha o brinquedo, quebra-o e grita de surpresa. Esse grito de surpresa é a poesia.

Muitas vezes, em textos lineares, pessoais, no âmbito das nossas contemporâneas redes sociais, incomodei pessoas com minhas posições. Acho que aí fui completo. A verdadeira palavra é a que incomoda, provoca, morde sua presa como cão sem dono. Com minhas palavras eu já provoquei muitas pessoas, que ficaram sem palavras.

Bem ou mal, continuarei escrevendo. Minha terapia é a palavra. Desejo, catarse, sublimação? Que importa? A palavra nos define antes de a definirmos, o resto é palavrório ou palavrão.

Já chorei baixinho em alguns versos, mas a noite sufocou o murmúrio do meu pranto. Então eu o transformei em ironia, sarcasmo, deboche. Sou um ator das minhas palavras, represento cenas pelo avesso, visto por trás a pele do personagem, o que quero dizer digo ao contrário e quando choro outros riem da minha risada improvisada no palco dos meus patéticos dramas tão baratos e hipotéticos.

Que fique o não dito pelo dito. Eu só posso dizer que grito emudecidamente, caso contrário ninguém me ouviria. Os grandes berros não dizem nada, só fazem barulho. Eu não berro, mas o meu silêncio explode em decibéis insuportáveis. A poesia é incomunicável, fico quieto no meu canto bem mineiro. Podem berrar à vontade.

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