É preciso não sentir o tempo. A chuva
que cai lá fora é sentida na minha alma com mais realidade do que a própria.
Não há sol, mas para além de um aparente sentir há luzes explodindo. Apalpo o
mundo, na tentativa de constatar sua concretude, mas mesmo ela se torna um
ideado, um sonho recortado de outros tantos sonhos, num estalo de química
poética aguda. Tudo em mim foi sempre sensação. Desde criança procuro entender
sentindo. O mundo aí fora não é o mundo bruto, contingente, é apenas um
conceito muito maluco na cabeça de um mágico bêbado querendo se divertir. Não,
nunca senti nada, não sinto nada. Em mim o sentir é ficção, sombra, simulacro.
Não sinto mais. Já não sou tão criança. Sentir é estar distraído. Tudo o que
não se sente é mais verdadeiro. Eu esquadrinho poemas no ar, num esboço
sentimental solitário. O mundo só existe porque pensamos nele.
Nietzsche via Novalis
"Seja em que poesia for, o caos deve transparecer sob o véu cerrado da ordem." - Novalis
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