É preciso não sentir o tempo. A chuva
que cai lá fora é sentida na minha alma com mais realidade do que a própria.
Não há sol, mas para além de um aparente sentir há luzes explodindo. Apalpo o
mundo, na tentativa de constatar sua concretude, mas mesmo ela se torna um
ideado, um sonho recortado de outros tantos sonhos, num estalo de química
poética aguda. Tudo em mim foi sempre sensação. Desde criança procuro entender
sentindo. O mundo aí fora não é o mundo bruto, contingente, é apenas um
conceito muito maluco na cabeça de um mágico bêbado querendo se divertir. Não,
nunca senti nada, não sinto nada. Em mim o sentir é ficção, sombra, simulacro.
Não sinto mais. Já não sou tão criança. Sentir é estar distraído. Tudo o que
não se sente é mais verdadeiro. Eu esquadrinho poemas no ar, num esboço
sentimental solitário. O mundo só existe porque pensamos nele.
Participei, nesse final de semana, de uma excelente oportunidade de troca viva de idéias e experiências sobre o ato da escrita. Deu-se em uma oficina na montanhosa região do Bairro Jardim Canadá, em Nova Lima, sob a supervisão da escritora e psicóloga Tânia Cristina Dias e do teatrólogo e também escritor Carlos Renatto. Os idealizadores da oficina Carlos Renatto e Tânia Cristina Dias Acho inciativas como essa heróicas, não só por se tratar de um setor tão negligenciado como a cultura, mas por ser uma atitude de encontro, de troca intensa e presencial de idéias, contrariando o ofício de escrever, sempre solitário. Troca de idéias Tivemos oportunidade de nos conhecermos e expandirmos nossas visões sobre arte, criamos juntos como o crente comunga uma hóstia. Isso é ótimo, pois em geral os artistas, por se dedicarem a um ofício subjetivo, vivem muito para dentro, são vaidosos, suscetíveis e nutrem uma idéia supervalorizada de suas obras. Ali reescrevemos conto...
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