É preciso não sentir o tempo. A chuva que cai lá fora é sentida na minha alma com mais realidade do que a própria. Não há sol, mas para além de um aparente sentir há luzes explodindo. Apalpo o mundo, na tentativa de constatar sua concretude, mas mesmo ela se torna um ideado, um sonho recortado de outros tantos sonhos, num estalo de química poética aguda. Tudo em mim foi sempre sensação. Desde criança procuro entender sentindo. O mundo aí fora não é o mundo bruto, contingente, é apenas um conceito muito maluco na cabeça de um mágico bêbado querendo se divertir. Não, nunca senti nada, não sinto nada. Em mim o sentir é ficção, sombra, simulacro. Não sinto mais. Já não sou tão criança. Sentir é estar distraído. Tudo o que não se sente é mais verdadeiro. Eu esquadrinho poemas no ar, num esboço sentimental solitário. O mundo só existe porque pensamos nele.

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