É preciso não sentir o tempo. A chuva
que cai lá fora é sentida na minha alma com mais realidade do que a própria.
Não há sol, mas para além de um aparente sentir há luzes explodindo. Apalpo o
mundo, na tentativa de constatar sua concretude, mas mesmo ela se torna um
ideado, um sonho recortado de outros tantos sonhos, num estalo de química
poética aguda. Tudo em mim foi sempre sensação. Desde criança procuro entender
sentindo. O mundo aí fora não é o mundo bruto, contingente, é apenas um
conceito muito maluco na cabeça de um mágico bêbado querendo se divertir. Não,
nunca senti nada, não sinto nada. Em mim o sentir é ficção, sombra, simulacro.
Não sinto mais. Já não sou tão criança. Sentir é estar distraído. Tudo o que
não se sente é mais verdadeiro. Eu esquadrinho poemas no ar, num esboço
sentimental solitário. O mundo só existe porque pensamos nele.
"As loucuras da última esbórnia devem ser sepultadas em eterno olvido a fim de abrir o máximo espaço para as loucuras da próxima" (David Hume) Vejam que Hume era um fanfarrão. Não sou eu que estou a dizer, é ele próprio, como se pode confirmar aí em cima. Os filósofos necessitam de noitadas regadas a muito álcool, Não foi à toa que Platão foi em tantos banquetes. E Sócrates? Quem não se lembra que no final do livro, cujo título em si já diz tudo, O Banquete, todos tombam, totalmente ébrios? Sócrates era tão chegado a uma taça que ao receber a taça de cicuta que o mataria sugeriu que se fizesse um brinde, ao que o carcereiro achou que não seria conveniente devido às circunstâncias. A esbórnia é, por assim dizer, a pátria de todo gênio, senão como suportar a vida? E Baudelaire? "Embriaga-te", era o seu lema. Horácio, que, como Sócrates, não era muito chegado à labuta, inventou o "carpe diem", aproveite a vida. Parece que nossos políticos levaram a séri...
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