Olho lá fora a paisagem sendo arrastada pelo movimento do ônibus sob um céu isento que não induz a nenhuma resposta nem a caminho algum, no entanto estou aqui a viajar, seguindo a estrada feito um violeiro errante sofismando minhas cantigas de mui amor. Rostos que não se identificam uns com os outros por vezes perturbam-se em breves e fortuitos encontros, recompondo-se logo, em perfeita dissimulação. Aqui no ônibus todos somos frios e distantes, tão distante possa ser essa estrada que nos dista principalmente de nós mesmos. Vez ou outra pela janela vem uma imagem emoldurada, um cavalo vagueando a esmo, um sertanejo indiferente à nossa passagem, reflexos cintilantes de algum corregozinho banhado pela luz do sol, casas humildes sob mangueiras enormes no sopé da montanha, um ou outro gavião em arrojado vôo. Pequenos arrancos surgem de súbito devido às irregularidades do asfalto. E ninguém no fundo sabe mesmo onde começa o tempo e termina a saudade porque o que nos corrói é a amarga visão de deserto que nos cobre como se, nômades, estivéssemos sempre à margem amassando as pedrinhas do percalço, quando estamos é presos dentro de uma incômoda e pétrea definição de gente. 

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