Olho lá fora a
paisagem sendo arrastada pelo movimento do ônibus sob um céu isento que não
induz a nenhuma resposta nem a caminho algum, no entanto estou aqui a viajar, seguindo
a estrada feito um violeiro errante sofismando minhas cantigas de mui amor.
Rostos que não se identificam uns com os outros por vezes perturbam-se em
breves e fortuitos encontros, recompondo-se logo, em perfeita dissimulação.
Aqui no ônibus todos somos frios e distantes, tão distante possa ser essa
estrada que nos dista principalmente de nós mesmos. Vez ou outra pela janela
vem uma imagem emoldurada, um cavalo vagueando a esmo, um sertanejo indiferente
à nossa passagem, reflexos cintilantes de algum corregozinho banhado pela luz
do sol, casas humildes sob mangueiras enormes no sopé da montanha, um ou outro
gavião em arrojado vôo. Pequenos arrancos surgem de súbito devido às
irregularidades do asfalto. E ninguém no fundo sabe mesmo onde começa o tempo e
termina a saudade porque o que nos corrói é a amarga visão de deserto que nos
cobre como se, nômades, estivéssemos sempre à margem amassando as pedrinhas do
percalço, quando estamos é presos dentro de uma incômoda e pétrea definição de
gente.
Participei, nesse final de semana, de uma excelente oportunidade de troca viva de idéias e experiências sobre o ato da escrita. Deu-se em uma oficina na montanhosa região do Bairro Jardim Canadá, em Nova Lima, sob a supervisão da escritora e psicóloga Tânia Cristina Dias e do teatrólogo e também escritor Carlos Renatto. Os idealizadores da oficina Carlos Renatto e Tânia Cristina Dias Acho inciativas como essa heróicas, não só por se tratar de um setor tão negligenciado como a cultura, mas por ser uma atitude de encontro, de troca intensa e presencial de idéias, contrariando o ofício de escrever, sempre solitário. Troca de idéias Tivemos oportunidade de nos conhecermos e expandirmos nossas visões sobre arte, criamos juntos como o crente comunga uma hóstia. Isso é ótimo, pois em geral os artistas, por se dedicarem a um ofício subjetivo, vivem muito para dentro, são vaidosos, suscetíveis e nutrem uma idéia supervalorizada de suas obras. Ali reescrevemos conto...
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