Olho lá fora a
paisagem sendo arrastada pelo movimento do ônibus sob um céu isento que não
induz a nenhuma resposta nem a caminho algum, no entanto estou aqui a viajar, seguindo
a estrada feito um violeiro errante sofismando minhas cantigas de mui amor.
Rostos que não se identificam uns com os outros por vezes perturbam-se em
breves e fortuitos encontros, recompondo-se logo, em perfeita dissimulação.
Aqui no ônibus todos somos frios e distantes, tão distante possa ser essa
estrada que nos dista principalmente de nós mesmos. Vez ou outra pela janela
vem uma imagem emoldurada, um cavalo vagueando a esmo, um sertanejo indiferente
à nossa passagem, reflexos cintilantes de algum corregozinho banhado pela luz
do sol, casas humildes sob mangueiras enormes no sopé da montanha, um ou outro
gavião em arrojado vôo. Pequenos arrancos surgem de súbito devido às
irregularidades do asfalto. E ninguém no fundo sabe mesmo onde começa o tempo e
termina a saudade porque o que nos corrói é a amarga visão de deserto que nos
cobre como se, nômades, estivéssemos sempre à margem amassando as pedrinhas do
percalço, quando estamos é presos dentro de uma incômoda e pétrea definição de
gente.
Nietzsche via Novalis
"Seja em que poesia for, o caos deve transparecer sob o véu cerrado da ordem." - Novalis
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