Resenha de mim mesmo
O poema de minha
autoria que se segue foi escrito há alguns longínquos anos, mas evoca sensações
contemporâneas:
"À noite, andando pela rua
Numa completa abstração,
Eu sinto a paz que me atenua
O espírito da agitação.
Livre, guiado pela lua
E sem o mal da solidão,
Eu sinto a alma toda nua
E sinto nu meu coração.
E me é tanto o prazer de andar
Alheio às desgraças do mundo
Que eu sinto minhas pernas no ar
E sinto meu ser mais profundo,
E a mim que importa chegar,
Se o mundo é um saco sem fundo..."
Há nele um tom
de despojamento búdico que se expressa na metáfora do caminhar não só como um
desprender-se das coisas como também de transcender-se a si próprio na
caminhada em direção a um outro e a um indefinido.
A nudez a que o
poema alude faz referência direta à libertação espiritual, nudez que pressupõe,
como correlato e conseqüência, essencialidades antes opacas pelo acúmulo de
superfluidades que só nos obstam a evolução moral e espiritual. Andemos nus
nesse sentido!
No primeiro
quarteto do soneto, forma fixa composta linearmente por dois quartetos e dois
tercetos e que, segundo tradicional exegese, remonta à literatura italiana
clássica e que seria, nessa língua, diminutivo de canção, falo que estou “numa
completa abstração”. Pois bem, em filosofia abstrair significa ir retirando os
acessórios até chegar ao profundo, ao sentido mais rico. Nessa abstração,
portanto, vem a paz, e não seria equivocado de minha parte se interpretar paz
aqui como um insight, quase um samadhi oriental, palavra que significa aproximadamente
algo como meditação, um estado de espírito concentrado apenas em si, apartado
das contingências e dos condicionamentos do mundo imanente. A palavra Samadhi, podemos então definir, significa
um estado de consciência expandida. É um estado de profunda contemplação, concentração
e meditação. Paz superior.
Pois bem, no
segundo terceto falo que sigo livre, guiado pela lua, ou seja, sob a luz
natural, portanto, de um jeito ou de outro, iluminado, e, o mais importante, “sem
o mal da solidão”. Pois bem, os orientais, a quem devo um constante apreço,
falam de uma certa “heresia da separatividade”, segundo a qual não devemos
jamais nos enxergarmos como átomos isolados, mas sim como partes de um Todo,
tal como na doutrina estóica, que via cada ser como expressão de um Ser maior
codificado na Natureza, expressão divina.
Em seguida falo
do prazer de andar, no sentido metafórico de despojamento, sentindo minhas
pernas no ar (intangibilidade), contudo tendo meu ser mais profundo, pois na
medida em que vou me desfazendo, no meu sígnico caminhar, de tudo o que me
obstruía, vou me preenchendo de uma outra realidade maior.
Termino
afirmando: “E a mim que importa chegar, se o mundo é um saco sem fundo...”. A
desimportância da trajetória aí se traduz, mais uma vez em filosofia, numa
abordagem destituída de fins utilitários, que se faz por si mesma,
independentemente de seus resultados práticos. Assim, caminho além de mim, mas,
quanto mais o faço, mais promovo um reencontro fenomenológico a mim mesmo,
porém rico, dessa vez, de um sentido, e essa é a viagem maior de todo ser
humano, aquela em que ele finalmente suspende seus atos mecânicos e autômatos,
livra-se do peso morto do irrisório e assim, de frente para si mesmo em sua
essencialidade (e estou aqui falando em epoché no sentido husserliano), ele
transpõe seu caminho, perfazendo-se além, muito além de quaisquer passos.
Tal foi o que
intentei passar, de maneira absolutamente descompromissada com as formas
barroquizantes que ainda imperam em nossa atualidade, e a forma simples do
poema, sem rebuscamentos, sem eruditices, é já ela um emblema dessa busca pelo
essencial e dessa libertação do supérfluo.
A todos os que
sentiram, ao lê-lo, ânsias viajantes em si mesmos, boa viagem rumo ao melhor
destino de todos: ao si-mesmo!
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