Dentre os diversos heterônimos
pessoanos o que me chamou mais a atenção desde quando o li pela primeira vez
foi o Alberto Caeiro pela densidade filosófica que este autor apresenta em sua
obra.
Ele dialoga facilmente com pelo
menos duas correntes epistemológicas interessantíssimas: a fenomenologia e o
zen budismo.
Caeiro propõe um retorno à natureza
como fonte de originalidade e pureza, se aproximando de Rousseau no que toca ao
bom selvagem. Para ele, devemos abdicar do conceito, pois este nos afasta da
realidade, em vez de dela nos aproximar. Quando vejo uma casa não sei o que a
coisa “casa” seja, conheço apenas sua significação lingüística, fruto de uma
convenção arbitrária entre significante e significado, quando alguém, na
fundação da sociedade (e nesse sentido toda organização social é eminentemente
lingüística), estabeleceu que o significante casa, a imagem, corresponderia ao
conceito casa, lar, habitação, etc. Trata-se de uma convenção, mas o que a casa
é em si não sabemos. O conceito, portanto, não passa de uma casca. Não
diferente diziam os zen budistas quando propunham, como método para se atingir
o real, um insight: para se contrapor à lógica formal, falha e finita, os
mestres dessa tradição secular oriental compunham os koans, que acabaram dando
origem aos haicais. Os koans nasceram com uma finalidade filosófica, cognitiva:
libertar o discípulo das teias da lógica, do conceito. Trata-se de pequenos
versos sem nenhum sentido, nonsense total, que serviam para chocar a mente
lógica, quebrando seus paradigmas. Assim, uma vez destruídos esses paradigmas,
o discípulo tinha acesso ao real num pasmo. Não é à toa que, em um de seus
poemas, Caeiro diga que sente o pasmo diante do novo: “Sei ter o pasmo
essencial/que tem uma criança se, ao nascer/reparasse que nascera deveras”.
A fenomenologia advoga basicamente a mesma causa: devemos suspender o juízo
acerca do mundo (epoché husserliana), colocar tudo entre parêntesis, assim
mergulhamos no mundo e não apenas o compreendemos intelectualmente. Para os
fenomenólogos, o importante não é saber acerca das coisas, mas mergulhar nelas,
saber imanente por si. Assim, diz Merleau-Ponty, insigne fenomenólogo: “O mundo
não é aquilo que eu penso, mas aquilo que eu vivo.” Em outro trecho do seu
livro famoso Fenomenologia da Percepção o filósofo diz: “A verdadeira filosofia
é reaprender a ver o mundo”. Tal como os mestres zen e Merleau-Ponty, Caeiro
nega o intelectualismo, receitando às mentes embotadas por uma doentia visão de
mundo o retorno à espontaneidade do real, um retorno ao saber primário,
destituído de sua gênese intelectualista. Mais importante que saber é viver.
Assim diz Caeiro: “O Mundo não se fez para pensarmos nele”. Em outro verso: “Eu
não tenho filosofia: tenho sentidos...”.
Em outra trecho Caeiro reflete os
ecos sapienciais dos zen, pois afirma:
“Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas
e efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus
e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é
fechar os olhos
E não pensar.”
Os mestres zen possuem uma
doutrina conhecida exatamente como não-mente, não-pensamento, que rejeita
qualquer expressão de cunho essencialista, intelectualista das coisas. Não
pensar significa, para eles, destruir os padrões epistemológicos que nos
enredam numa trama de enganos, sofismas e ilusões e despertar para a verdade
oculta do mundo, que rebrilha em uma outra dimensão. Para esses mestres o nosso
plano é apenas uma sombra enganosa, que eles denominaram Véu de Maia, algo que
encobre a realidade fazendo-nos crer que seja a realidade, quando não passa de
fantasia, e aqui filmes como Matrix são paradigmáticos. Nosso conhecimento,
então, não passa de uma grande mentira. O verdadeiro saber seria um outro,
transcendente, que a razão humana não consegue atingir. Outra coisa não disse
Kant em seu conceito de fenômeno em oposição a coisa-em-si, embora com
abordagens e propostas muito diferentes.
Caeiro é um poeta que pretende
retornar à fonte primária, anterior às significações sinuosas e sempre
questionáveis da cultura. Não quer conhecer, quer viver. Se formos a Rousseau
veremos que o filósofo genebrino propôs toda uma filosofia em torno desse
retorno originário e desse anti-intelectualismo. Seu bom selvagem é o filósofo
que abdicou das convenções societárias e abraçou o natural como origem
inclusive divina, impondo aos laços do estado civil a fonte de todo mal e
disparidades econômicas. Rousseau cunhou a expressão “animal depravado” para
aquele sujeito do conhecimento corrompido pelas instituições, o intelectual tal
como o conhecemos hoje.
Talvez um bom retrato atual de um
poeta sensualista, naturalista, embora não poeta mas romancista, seja Raduan
Nassar. O autor de Um Copo de Cólera, depois de estrondoso sucesso, abriu mão
de tudo, inclusive da literatura, e hoje vive recluso em seu sítio no interior
de São Paulo. Em recente e rara entrevista afirmou que não queria saber de mais
nada que não fosse vida. Eis aí uma versão atualizada do que Caeiro propôs.
Uma boa parte da tradição
esotérica remanescente do misticismo neoplatônico (Amônio Sacas e Plotino), da
cabala judaica e das tradições orientais (a teosofia é um exemplo maior)
considera também o conhecimento humano como fonte de enganos, armação,
artimanha, onde o sujeito cognoscente é apanhado e trapaceado, percebendo
depois sua ilusão. Se remontarmos à tradição cristã veremos que também ela
encara o conhecimento como elemento pernicioso, pecaminoso, se não for
expurgado dos erros pela luz da fé (Santo Agostinho, Santo Tomás, etc).
Fernando Pessoa possui outro
heterônimo de grande porte filosofal: Ricardo Reis, autor que dialoga com o
epicurismo e o estoicismo (“abdica e sê rei de ti mesmo”). Mas Caeiro para mim,
por tudo o que disse e poderia continuar dizendo in infinitum, é sem dúvida o
mais importante, até mais que Álvaro de Campos, que, por ser um poeta
futurista, expressão das metrópoles e das revoluções industriais e
pós-industriais, está mais perto historicamente de nós. Mas Caeiro parece nos
acenar ao longe, no meio de sua natural compreensão anti-utilitarista e
anti-lógica da vida, trajando uma bata amarela típica dos monges e entoando
koans de eterna sabedoria. Fechemos os olhos para enxergar!
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