Quando não dá mais pra remediar é
melhor que termine de vez, que o fim venha então apaziguar a dor e a
frustração. Não dá mais, não dá... Saí para a rua e vaguei feito um sonâmbulo
por entre seres errantes e nebulosos, vagos protagonistas de uma nouvelle vague
bêbada e subterrânea, moribundos zumbis se alimentando do sangue alheio, entre
os destroços de um deletério sistema social em flagrante estado de
degenerescência. A lua estava espectral, pairando num espaço vítreo. Não dá
mais, não dá, gritei com as mãos prensando a cabeça. Um vago perfume carnal
veio na brisa noturna como um intermezzo (atenção: a viagem começa sem
pára-quedas, turbulência implacável à frente, segurem-se, falidos viajantes
deste vôo suicida!), aflorou de repente, ninguém soube por que, veio mais alto
do que o tempo, desatinou as substâncias presentes e infundiu um fluxo mais
caótico à cidade, que entendeu-se com o movimento sem tentar vencer as formas
nuas, apenas deixou-se ir e atingiu seu mais claro insight: No começo está o fim, no fim está o
começo...
"As loucuras da última esbórnia devem ser sepultadas em eterno olvido a fim de abrir o máximo espaço para as loucuras da próxima" (David Hume) Vejam que Hume era um fanfarrão. Não sou eu que estou a dizer, é ele próprio, como se pode confirmar aí em cima. Os filósofos necessitam de noitadas regadas a muito álcool, Não foi à toa que Platão foi em tantos banquetes. E Sócrates? Quem não se lembra que no final do livro, cujo título em si já diz tudo, O Banquete, todos tombam, totalmente ébrios? Sócrates era tão chegado a uma taça que ao receber a taça de cicuta que o mataria sugeriu que se fizesse um brinde, ao que o carcereiro achou que não seria conveniente devido às circunstâncias. A esbórnia é, por assim dizer, a pátria de todo gênio, senão como suportar a vida? E Baudelaire? "Embriaga-te", era o seu lema. Horácio, que, como Sócrates, não era muito chegado à labuta, inventou o "carpe diem", aproveite a vida. Parece que nossos políticos levaram a séri...
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