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Mostrando postagens de 2013
A literatura brasileira é uma das ricas do mundo. Não só ela, mas a cultura brasileira é uma das mais profícuas e consistentes do mundo. Temos atores e autores respeitados em âmbito geral, gente do teatro, das artes plásticas, da literatura e outras áreas afins. No meu caso, iniciei-me como leitor pela literatura do meu país. Cedo descobri Machado, Alencar, Manoel de Macedo, Lima Barreto, nossos poetas. Minhas primeiras influências poéticas vieram dos nossos bardos. Lia tudo, sem critério, misturava gêneros, indo do arcádico, passando pelo parnaso mais formalista, pelo nosso rico simbolismo, até o modernismo e vanguarda. Minhas leituras simbolistas ficaram indelevelmente gravadas no meu DNA poético. Certa vez, em uma oficina literária ministrada por uma autora conhecida, esta sugeriu, como de praxe, que escrevêssemos ali, de improviso, a título de análise textual pura e simples. Elaborei, então, um miniconto bastante pessoal e repleto de palavras esdrúxulas e rítmicas, uma das minhas...
Coreografia de algozes e decapitados num sutra de carne e treva, lampejos de uma pseudoluz luziluzindo na noite subterrânea e seu ópio de Adonai - calor e medo; amor, é cedo! -, pupilas que supliciam apenas passagem, a cidade dentro do tribunal das horas, com seu corpo embalsamado cheio de pássaros suicidas...
É comovente como o poema nos causa impressão, como um flashe meteórico que nos ofusca a visão, como um tapa, um tapa súbito, e o poema faz isso sem precisar, como na filosofia, se utilizar da violência do conceito, da razão bárbara, o poema infunde uma verdade musical na alma e essa verdade se torna indelével em nós, o poema não explica nada, ensina com substância impensada, e isso é belo e universal, a razão só empobrece, limita, nos dá um xérox pálido de tudo, a poesia culmina no fundo do espírito e lá aquele clarão de que falei nos ilumina. Acho este poema belíssimo: na hora de pôr a mesa, éramos cinco: o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e eu. depois, a minha irmã mais velha casou-se. depois, a minha irmã mais nova casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje, na hora de pôr a mesa, somos cinco, menos a minha irmã mais velha que está na casa dela, menos a minha irmã mais   nova que está na casa dela, menos o meu pai, menos a minha mãe viúva. cada um deles é u...
Raul Seixas foi não só um profícuo bardo do nosso cancioneiro, mas também uma espécie de mago, de bruxo do bem, de esotérico adepto da ala branca de Madama Blavatsky e outras seitas, juntamente com seu parceiro Paulo Coelho, hoje conhecido autor de certo gênero pasteurizado destinado a uma concepção salvífica e, por isso mesmo, muito criticado. Suas canções ressoam em minha infância, onde ouvia ecos do clássico Gîta, lá pelos inícios dos anos setenta, até hoje, quando o ouço e fico absorvendo as emanações sapienciais que delas surgem. Se fosse aqui falar de Gîta teria que trazer á luz análises de cunho filosófico sobre essa música, toda ela inspirada na obra sagrada do hinduísmo Baghavad Gîta, o que demandaria uma riqueza e profundidade que não vêm ao caso, porque não vou tratar dessa canção aqui, mas de outra não menos rica e importante, Metamorfose Ambulante. Aliás, o repertório do autor é vastíssimo e todo ele dotado de uma complexidade e grandeza que o colocam ao lado dos mais...
Dentre os diversos heterônimos pessoanos o que me chamou mais a atenção desde quando o li pela primeira vez foi o Alberto Caeiro pela densidade filosófica que este autor apresenta em sua obra. Ele dialoga facilmente com pelo menos duas correntes epistemológicas interessantíssimas: a fenomenologia e o zen budismo. Caeiro propõe um retorno à natureza como fonte de originalidade e pureza, se aproximando de Rousseau no que toca ao bom selvagem. Para ele, devemos abdicar do conceito, pois este nos afasta da realidade, em vez de dela nos aproximar. Quando vejo uma casa não sei o que a coisa “casa” seja, conheço apenas sua significação lingüística, fruto de uma convenção arbitrária entre significante e significado, quando alguém, na fundação da sociedade (e nesse sentido toda organização social é eminentemente lingüística), estabeleceu que o significante casa, a imagem, corresponderia ao conceito casa, lar, habitação, etc. Trata-se de uma convenção, mas o que a casa é em si não sabem...
Sentir é mais verdadeiro do que pensar.
A imensa corrida desenfreada do centro da cidade ancorada no dinheiro e no poder, as praças apinhadas, onde, no poente em sangue, explodem captações de sentidos mundividentes, os cafés embalados pela retórica dos discípulos de Demóstenes, os carros no fluxo das vias abertas como punhos suicidados, os arranha-céus pipocando em luzes apoteóticas como a querer contato com civilizações longínquas, tudo isso, os negritos nos jornais evidenciando acontecimentos, tudo isso apenas diz: as pessoas se procuram nas coisas e justamente nelas se perdem. As pessoas se perdem porque buscam se refletir naquilo que não são. É fato, todavia, que tudo está impregnado do humano, o mundo apresenta, por toda parte, vestígios do humano labor, por toda parte há ecos do anthropos, nas artes, nas ciências, na tecnologia, na filosofia, na fé, em tudo há a marca indelével desse ser em sua imensa procura e esquecimento de si, pois, ao se buscarem nas coisas de fora, as pessoas se esquecem das coisas de dentro, ...
No poente coberto pelas chagas de Cristo, a cidade se reveste de uma face grave (o abismo, o de profundis ). O movimento é orquestrado pelos falcões do progresso e as pedras de cada edifício são as lepras da nossa degenerescência social.  Eu renuncio ao mundo tal como o Senhor Buda renunciou ao Nirvana, com a diferença de que o mundo dos homens é um inferno e estamos setenta subníveis abaixo do mais atrasado plano. Estou coberto de desejos, e eles passam. Estou cercado de morte, e ela também passa. Estou cercado de fome, e ela se engole a si mesma e se envenena com a própria inanição. Estou cercado de mim mesmo, e disso eu não escaparei jamais. A cidade é um quartel canalha de prisioneiros medievais. Da janela do prédio aonde vim resolver problemas burocráticos, um imponente arranha-céu fincado no coração desta belzonti provincianamente sofisticada, vejo lá longe a pulsação irrequieta das pessoas como pequenos coágulos de luz atormentada atravessando o pesadelo d...
Um conceito é apenas um fantasma, uma projeção débil das coisas, vago, incerto, sombra errante, oscilante. Um conceito - quando não se torna um preconceito - insufla erros epistemológicos graves na mente, produz charcos mentais onde aquele investigador não da verdade mas das verdades se refestela enquanto se esquece do que um dia foi pensado. Um conceito é como um rótulo: devemos tirá-lo primeiro, depois surge o conteúdo. Quem pensa por conceitos não pensa, afasta-se do pensamento olhando pra ele pela lente míope de um erro cognitivo. Em certo sentido, sou bergsoniano: prefiro o mergulho intuitivo e direto no coração das coisas, mergulho este que se dá, na grande maioria das vezes, por um viés estético, não filosófico, porque sempre preferi pensar por imagens.. Quando abandonamos o conceito abraçamos o fruto e largamos a casca, deixando de tomar um pelo outro.
Eu saúdo a luta, a batalha campal, o enfrentamento, pois outra coisa a existência não é senão uma grande batalha física, metafísica. Saúdo os primórdios onde se travaram as grandes e seculares guerras, os Aquiles, Heitores e Menelaus, os Páris da vida em suas ilíadas de sangue. Saúdo cada segundo da vida, pois ele não passa de um emblema da nossa luta contra a morte. Morremos e ressuscitamos a cada inspiração-expiração. O próprio modelo social se constitui já como signo de luta inglória, e muitas vezes não-inglória mas legítima, pelo poder. Sem falar naquela outra proposição, já gasta, que aponta para aquela mais significativa guerra: a de nós contra nós mesmos.
Pirado no íntimo, louco, mas livre, autêntico, sentindo um carrossel de diversos afetos pulsando em mim, vendo coisas que se misturam, os olhos dos outros se ofuscando na névoa, os faróis dos carros, os prédios, o mundo-vertigem no colapso do ser-aí. Louco, dizem, louco sim, e feliz, o que vocês não suportam, louco e sem idéias. As idéias são furtos dos nossos momentos mais felizes, são amargos venenos de esquecimento, mas, quando ultrapassamo-las, aí vem o entendimento. Sem leis, apenas as de dentro, sem moral, sem juízos, apenas o respeito pelo próximo. Louco e alucinado. Não preciso de moral nem de ética. Isso são coisas inventadas pela sociedade porque ela não consegue sobreviver sem matar e cria conceitos de justo e injusto pra manter a coesão e preservar a vida. Essa é a nossa bela civilização: assassina, mentirosa, atrasada! Um novo mundo desperta para mim agora. Rodeio as pessoas, feliz. Vejo um equilibrista se apresentando na praça molhada de chuva. Temos todos que ser ...
Quando não dá mais pra remediar é melhor que termine de vez, que o fim venha então apaziguar a dor e a frustração. Não dá mais, não dá... Saí para a rua e vaguei feito um sonâmbulo por entre seres errantes e nebulosos, vagos protagonistas de uma nouvelle vague bêbada e subterrânea, moribundos zumbis se alimentando do sangue alheio, entre os destroços de um deletério sistema social em flagrante estado de degenerescência. A lua estava espectral, pairando num espaço vítreo. Não dá mais, não dá, gritei com as mãos prensando a cabeça. Um vago perfume carnal veio na brisa noturna como um intermezzo (atenção: a viagem começa sem pára-quedas, turbulência implacável à frente, segurem-se, falidos viajantes deste vôo suicida!), aflorou de repente, ninguém soube por que, veio mais alto do que o tempo, desatinou as substâncias presentes e infundiu um fluxo mais caótico à cidade, que entendeu-se com o movimento sem tentar vencer as formas nuas, apenas deixou-se ir e atingiu seu mais claro insight...
É preciso não sentir o tempo. A chuva que cai lá fora é sentida na minha alma com mais realidade do que a própria. Não há sol, mas para além de um aparente sentir há luzes explodindo. Apalpo o mundo, na tentativa de constatar sua concretude, mas mesmo ela se torna um ideado, um sonho recortado de outros tantos sonhos, num estalo de química poética aguda. Tudo em mim foi sempre sensação. Desde criança procuro entender sentindo. O mundo aí fora não é o mundo bruto, contingente, é apenas um conceito muito maluco na cabeça de um mágico bêbado querendo se divertir. Não, nunca senti nada, não sinto nada. Em mim o sentir é ficção, sombra, simulacro. Não sinto mais. Já não sou tão criança. Sentir é estar distraído. Tudo o que não se sente é mais verdadeiro. Eu esquadrinho poemas no ar, num esboço sentimental solitário. O mundo só existe porque pensamos nele.
Olho lá fora a paisagem sendo arrastada pelo movimento do ônibus sob um céu isento que não induz a nenhuma resposta nem a caminho algum, no entanto estou aqui a viajar, seguindo a estrada feito um violeiro errante sofismando minhas cantigas de mui amor. Rostos que não se identificam uns com os outros por vezes perturbam-se em breves e fortuitos encontros, recompondo-se logo, em perfeita dissimulação. Aqui no ônibus todos somos frios e distantes, tão distante possa ser essa estrada que nos dista principalmente de nós mesmos. Vez ou outra pela janela vem uma imagem emoldurada, um cavalo vagueando a esmo, um sertanejo indiferente à nossa passagem, reflexos cintilantes de algum corregozinho banhado pela luz do sol, casas humildes sob mangueiras enormes no sopé da montanha, um ou outro gavião em arrojado vôo. Pequenos arrancos surgem de súbito devido às irregularidades do asfalto. E ninguém no fundo sabe mesmo onde começa o tempo e termina a saudade porque o que nos corrói é a amarga vis...

Resenha de mim mesmo

O poema de minha autoria que se segue foi escrito há alguns longínquos anos, mas evoca sensações contemporâneas: "À noite, andando pela rua Numa completa abstração, Eu sinto a paz que me atenua O espírito da agitação. Livre, guiado pela lua E sem o mal da solidão, Eu sinto a alma toda nua E sinto nu meu coração. E me é tanto o prazer de andar Alheio às desgraças do mundo Que eu sinto minhas pernas no ar E sinto meu ser mais profundo, E a mim que importa chegar, Se o mundo é um saco sem fundo..." Há nele um tom de despojamento búdico que se expressa na metáfora do caminhar não só como um desprender-se das coisas como também de transcender-se a si próprio na caminhada em direção a um outro e a um indefinido. A nudez a que o poema alude faz referência direta à libertação espiritual, nudez que pressupõe, como correlato e conseqüência, essencialidades antes opacas pelo acúmulo de superfluidades que só nos obstam a evolução moral e espi...
Minha relação com a palavra é ambígua, anfíbia, é um espaço de cio que me toca, eu me desequilibro, caio, meus ossos se partem e deles nascem essências inteiras reunidas num corpo íntegro. Escuto as palavras para entender seus segredos, depois fico mudo e traduzo minha mudez em som, mas o que não digo me escuta mais do que a mim e me declama. Eu sou o espelho das minhas próprias vírgulas (vísceras). Meus versos são noturnos, gostos de palavras pesadas, difíceis, carregadas, gosto do seu férreo aspecto, das construções bem cimentadas mas que se dissolvem com um frêmito (gosto de palavras como “frêmito”). É o meu jeito de amanhecer. Através do denso pano trevoso dos meus versos meu sol se dilata e expande outros horizontes. É assim com alguns: precisam de um caos dentro de si para gerarem a luz mais ofuscante (copyright - Nietzsche). Não sou dado a efusivas expansões líricas, aos arroubos apaixonados dos vates inspirados, não gosto muito da poesia caudalosamente derramada ...
É um problema terrível esse da consciência, porque ela nos afasta das vivências, nos torna superficiais, presunçosos, inimigos da beleza e da luz. Toda consciência é fonte de preconceitos, inclusive morais, e toda consciência pune. Foi a consciência, e certamente a mais perigosa porque convicta de toda verdade, que deflagrou os grandes e mortíferos conflitos mundiais, foi a consciência que propagou regimes discricionários, foi a consciência que inventou noções de pecado e nos afastou do amor como de uma doença, foi a consciência que se iludiu - seu maior erro histórico - crendo estar imersa no âmago das coisas e conhecendo-as, quando apenas criava ficções suas mesmas, como um retardado que projeta o céu no espelho e diz que foi ele quem o criou, se autoproclamando Deus.
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Participei, nesse final de semana, de uma excelente oportunidade de troca viva de idéias e experiências sobre o ato da escrita. Deu-se em uma oficina na montanhosa região do Bairro Jardim Canadá, em Nova Lima, sob a supervisão da escritora e psicóloga Tânia Cristina Dias e do teatrólogo e também escritor Carlos Renatto. Os idealizadores da oficina Carlos Renatto e Tânia Cristina Dias Acho inciativas como essa heróicas, não só por se tratar de um setor tão negligenciado como a cultura, mas por ser uma atitude de encontro, de troca intensa e presencial de idéias, contrariando o ofício de escrever, sempre solitário. Troca de idéias Tivemos oportunidade de nos conhecermos e expandirmos nossas visões sobre arte, criamos juntos como o crente comunga uma hóstia. Isso é ótimo, pois em geral os artistas, por se dedicarem a um ofício subjetivo, vivem muito para dentro, são vaidosos, suscetíveis e nutrem uma idéia supervalorizada de suas obras. Ali reescrevemos conto...
“O homem é um animal criador”                         Dostoiévski